Aplicações do circuito RC
Tiras uma fotografia à noite e o flash dispara em milésimos de segundo. Mas, depois do disparo, a máquina demora alguns segundos a «carregar» até poderes tirar outra. A mesma bateria, o mesmo condensador: porque é que uma coisa é tão lenta e a outra tão rápida? Neste apartado vais ver que a resposta está sempre na constante de tempo $\tau = R\,C$.
O flash: carga lenta, descarga rápida
Um flash eletrónico guarda energia num condensador. O ciclo tem duas fases:
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Carga: a bateria carrega o condensador através de um resistor de resistência elevada. O condensador enche-se devagar.
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Descarga: ao disparar, o condensador descarrega-se através da lâmpada, de resistência muito baixa. A energia sai de uma só vez.
O condensador é o mesmo nas duas fases. O que muda é a resistência do circuito e, por isso, a constante de tempo.
Lembra que, em qualquer carga ou descarga, a grandeza varia mais depressa no início e a escala de tempo é dada por $\tau$. Quanto maior $\tau$, mais lento é o processo.
O flash eletrónico de uma máquina fotográfica contém um condensador que é carregado lentamente pela bateria, através de um resistor de resistência elevada, e que se…
O flash eletrónico de uma máquina fotográfica contém um condensador que é carregado lentamente pela bateria, através de um resistor de resistência elevada, e que se descarrega muito rapidamente através da lâmpada, quando se tira a fotografia. A figura mostra como varia a diferença de potencial $U$ entre as armaduras do condensador durante um ciclo completo de funcionamento.
- a) Explica, recorrendo às constantes de tempo dos circuitos de carga e de descarga, por que razão a carga é muito mais lenta do que a descarga.
- b) Durante a descarga, a lâmpada apresenta uma resistência elétrica de $2,0\ \Omega$ e o condensador tem capacidade $470\ \mu\text{F}$. Calcula a constante de tempo da descarga e compara o resultado com a duração típica de um clarão de flash, cerca de um milissegundo.
- c) Na carga, a corrente passa por um resistor de $2,2\ \text{k}\Omega$. Determina o tempo aproximado que é necessário esperar até o condensador estar praticamente carregado (considera $5 \cdot \tau$).
O temporizador da luz das escadas
Nos prédios, carregas no botão e a luz das escadas apaga-se sozinha passado algum tempo. Como é que ela «sabe» quanto tempo esperar?
A ideia é a seguinte. Ao carregar no botão, a luz acende e começa a carga de um condensador através de um resistor. Enquanto a diferença de potencial nas armaduras for inferior a um valor limite $U_{lim}$, a luz mantém-se acesa. Quando $U_C$ atinge $U_{lim}$, um circuito eletrónico desliga a luz.
O tempo de espera depende de como $U_C$ cresce:
$$U_C = \varepsilon\left(1 - e^{-t/\tau}\right) \quad\Rightarrow\quad t = -\tau\,\ln\!\left(1 - \frac{U_{lim}}{\varepsilon}\right)$$Para o mesmo $\varepsilon$ e o mesmo $U_{lim}$, o tempo é proporcional a $\tau$. Isto dá-te o botão de regulação: mais $R$ ou mais $C$ significa luz acesa durante mais tempo.
Em muitos prédios, a luz das escadas acende quando se carrega num botão e apaga-se sozinha algum tempo depois. O temporizador que controla a luz baseia-se na carga lenta…
Em muitos prédios, a luz das escadas acende quando se carrega num botão e apaga-se sozinha algum tempo depois. O temporizador que controla a luz baseia-se na carga lenta de um condensador através de um resistor: enquanto a diferença de potencial nas armaduras não atinge um certo valor, a luz mantém-se acesa.
- a) Explica como a constante de tempo do circuito RC permite controlar o intervalo de tempo durante o qual a luz fica acesa.
- b) Pretende-se que a luz fique acesa durante cerca de $1\ \text{min}$, o que corresponde, aproximadamente, a uma constante de tempo. Usando um condensador de $470\ \mu\text{F}$, determina a resistência elétrica do resistor a instalar.
- c) Sem trocar o resistor, indica que alteração se pode fazer no circuito para duplicar o tempo de iluminação. Justifica.
O desfibrilhador automático externo
Os desfibrilhadores automáticos externos (DAE) existem em muitas escolas, ginásios e estações de comboio em Portugal. Um DAE usa um condensador como «reservatório» de energia: carrega-o lentamente a alta tensão e descarrega-o de uma vez através do tórax da pessoa. O impulso é curto e intenso, e é isso que interessa.
Dois ingredientes bastam para o estudar:
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Energia armazenada no condensador (fornecida como dado): $E = \tfrac12\,C\,U^2$. Repara que depende do quadrado da diferença de potencial.
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Descarga num resistor (o tórax): $U = U_0\,e^{-t/\tau}$, com $\tau = R\,C$.
Os desfibrilhadores automáticos externos (DAE), instalados em escolas, ginásios e estações de comboio de Portugal no âmbito do Programa Nacional de DAE do INEM,…
Os desfibrilhadores automáticos externos (DAE), instalados em escolas, ginásios e estações de comboio de Portugal no âmbito do Programa Nacional de DAE do INEM, armazenam energia num condensador. Quando acionados, o condensador descarrega-se através do tórax da pessoa, num impulso elétrico muito curto.
- a) A energia armazenada num condensador é dada por $E = \frac{1}{2} \cdot C \cdot U^2$. Calcula a energia libertada num impulso em que o condensador de $100\ \mu\text{F}$ está carregado a uma diferença de potencial de $2,0\ \text{kV}$.
- b) Durante a descarga, o tórax comporta-se como um resistor de resistência elétrica de cerca de $50\ \Omega$. Determina a constante de tempo da descarga e explica por que razão o impulso é tão breve.
- c) Justifica por que razão se usa um condensador carregado a uma elevada diferença de potencial, em vez de uma ligação direta à rede elétrica, para produzir o impulso.
O relógio logarítmico
Já sabes que na descarga $U = U_0\,e^{-t/\tau}$. Esta curva exponencial não é fácil de ler. Mas, se aplicares o logaritmo natural, obténs uma reta:
$$\ln U = \ln U_0 - \frac{1}{\tau}\,t$$Compara com $y = b + m\,x$: o gráfico de $\ln U$ em função de $t$ tem ordenada na origem $\ln U_0$ e declive $-\dfrac{1}{\tau}$.
Isto permite construir um relógio logarítmico. Medes $U$ com um voltímetro, calculas $\ln U$ e obténs diretamente o tempo decorrido:
$$t = \tau\left(\ln U_0 - \ln U\right)$$Uma grandeza que varia exponencialmente com o tempo passa a ser lida como uma escala linear. É a ideia usada, por exemplo, no cálculo de períodos de semidesintegração.
Pesquisa e metodologia
Faz uma pesquisa sobre circuitos RC e cria, em grupo, um relógio logarítmico: usa um condensador, um resistor de resistência elevada e um voltímetro. Mede $U$ em função de $t$, faz o gráfico de $\ln U$ e verifica se os pontos se alinham numa reta. Explica a metodologia seguida e os resultados obtidos, incluindo o valor de $\tau$. Se os pontos não se alinharem, discute as fontes de erro: a resistência interna do voltímetro, as fugas do condensador e as incertezas de leitura.
Em resumo
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A constante de tempo $\tau = RC$ mede a rapidez da carga ou da descarga. Quanto maior $\tau$, mais lento é o processo.
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Flash: carga lenta (resistência elevada, $\tau$ grande) e descarga rápida (resistência baixa, $\tau$ pequeno).
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Temporizador: o tempo de espera até $U_C$ atingir um valor limite é proporcional a $\tau$. Em $t = \tau$, o condensador está a $63\ \%$ da carga final.
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Desfibrilhador: a energia armazenada é $E = \tfrac12 C U^2$, e a descarga no tórax segue $U = U_0\,e^{-t/\tau}$.
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Relógio logarítmico: $\ln U = \ln U_0 - t/\tau$ é uma reta de declive $-1/\tau$, o que permite determinar $\tau$ e medir o tempo.
De volta ao início: o flash carrega devagar porque a carga se faz através de uma resistência elevada ($\tau$ grande) e dispara depressa porque a descarga se faz através de uma resistência muito baixa ($\tau$ pequeno).