Termografia e arrefecimento radiativo
Numa manhã de janeiro, em Vila Real, o termómetro do carro marca 3 °C. Mesmo assim, o para-brisas está coberto de geada. Como pode haver gelo se o ar está acima de 0 °C? E como consegue uma câmara «ver» o calor que sai de uma casa? A resposta às duas perguntas está na mesma ideia: tudo o que tem temperatura emite radiação.
A câmara termográfica
Qualquer corpo a uma temperatura $T > 0\ \text{K}$ emite radiação térmica. Para os corpos à temperatura ambiente, essa radiação não se vê. Podemos calcular o comprimento de onda a que a emissão é máxima com a lei de Wien:
$$\lambda_{max} = \frac{b}{T}, \qquad b = 2{,}898\cdot10^{-3}\ \text{m}\cdot\text{K}$$Para uma parede a $10\ ^\circ\text{C}$ ($283\ \text{K}$):
$$\lambda_{max} = \frac{2{,}898\cdot10^{-3}}{283} \approx 1{,}0\cdot10^{-5}\ \text{m} = 10\ \mu\text{m}$$Este valor está na região do infravermelho, muito para lá do vermelho visível. Por isso a pele sente o calor de uma parede quente, mas os olhos não veem nada. A câmara termográfica tem um sensor sensível a esta radiação infravermelha e transforma-a numa imagem a cores ou em tons de cinzento.
O que determina o brilho de cada ponto da imagem? A potência emitida por unidade de área, dada pela lei de Stefan-Boltzmann (para um emissor ideal):
$$\frac{P}{A} = \sigma T^4, \qquad \sigma = 5{,}67\cdot10^{-8}\ \text{W}\cdot\text{m}^{-2}\cdot\text{K}^{-4}$$A temperatura entra em kelvin e elevada à quarta potência. Uma superfície mais quente emite mais, por isso aparece mais luminosa na imagem. Como $P$ depende de $T^4$, uma pequena subida de temperatura provoca um aumento apreciável da potência emitida.
No inverno, um perito qualificado do Sistema de Certificação Energética dos edifícios (SCE/ADENE) fotografou a fachada de uma moradia em Vila Real com uma câmara…
No inverno, um perito qualificado do Sistema de Certificação Energética dos edifícios (SCE/ADENE) fotografou a fachada de uma moradia em Vila Real com uma câmara termográfica. Na imagem obtida, as zonas em redor das janelas aparecem mais luminosas do que as restantes áreas da parede.
- a) Explica o princípio físico da termografia: indica a radiação que a câmara deteta e como se relaciona o brilho da imagem com a temperatura das superfícies, de acordo com a lei de Stefan-Boltzmann.
- b) Calcula a potência radiada por cada metro quadrado de parede a $8\ ^\circ\text{C}$ e por cada metro quadrado de vidro das janelas a $14\ ^\circ\text{C}$, admitindo emissores ideais ($\sigma = 5,67\cdot10^{-8}\ \text{W}\cdot\text{m}^{-2}\cdot\text{K}^{-4}$).
- c) Compara os valores obtidos na alínea anterior e explica como a termografia permite detetar pontes térmicas e defeitos no isolamento dos edifícios.
Arrefecimento radiativo e geada
Uma superfície exposta ao ar livre não só emite radiação, também recebe a que vem da atmosfera e do céu. A potência líquida que perde por radiação é:
$$P = \sigma A\,(T^4 - T_c^4)$$onde $T$ é a temperatura da superfície e $T_c$ é a temperatura radiativa efetiva do céu, ambas em kelvin. Se $T > T_c$, a superfície perde energia e arrefece.
A diferença entre uma noite limpa e uma noite nublada está em $T_c$:
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Noite limpa: a atmosfera deixa passar quase toda a radiação infravermelha para o espaço frio. $T_c$ é baixa e a perda líquida é grande.
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Noite nublada: as nuvens absorvem o infravermelho e voltam a emiti-lo para baixo. $T_c$ é próxima da temperatura do ar e a perda líquida é pequena.
Nas noites limpas de inverno, o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) emite frequentemente avisos de geada para o interior Norte e Centro de Portugal, mesmo…
Nas noites limpas de inverno, o IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera) emite frequentemente avisos de geada para o interior Norte e Centro de Portugal, mesmo quando a temperatura do ar se mantém alguns graus acima de $0\ ^\circ\text{C}$. A explicação está no arrefecimento radiativo: as superfícies perdem energia por radiação para o céu. Admite que a potência líquida radiada por uma superfície é $P = \sigma\cdot A\cdot (T^4 - T_{c}^4)$, em que $T_{c}$ é a temperatura radiativa efetiva do céu. A figura compara uma noite limpa com uma noite nublada.
- a) Explica por que razão, numa noite limpa, uma superfície como o tejadilho de um carro ou a relva de um jardim pode atingir temperaturas inferiores à do ar, permitindo a formação de geada.
- b) Calcula a potência líquida radiada por $1,0\ \text{m}^2$ de relva a $0\ ^\circ\text{C}$, numa noite limpa em que $T_{c} = 258\ \text{K}$, isto é, $-15\ ^\circ\text{C}$ ($\sigma = 5,67\cdot10^{-8}\ \text{W}\cdot\text{m}^{-2}\cdot\text{K}^{-4}$).
- c) Explica por que razão a presença de nuvens reduz o arrefecimento radiativo e torna a geada menos provável, relacionando este fenómeno com o papel da atmosfera no efeito de estufa.
Voltando ao início: o para-brisas do carro, exposto ao céu limpo, perde mais energia por radiação do que recebe do céu. A sua temperatura desce abaixo da do ar, e a geada forma-se mesmo quando o termómetro do carro marca $3\ ^\circ\text{C}$. A câmara termográfica faz o inverso: lê a radiação infravermelha que uma superfície emite e converte-a numa imagem de temperaturas.
Em resumo
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Todos os corpos emitem radiação térmica. À temperatura ambiente, a emissão máxima está no infravermelho: $\lambda_{max} = b/T$.
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A câmara termográfica deteta o infravermelho. Quanto mais quente a superfície, mais radiação emite e mais luminosa surge na imagem.
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Potência radiada por um emissor ideal: $P = \sigma A T^4$, com $T$ em kelvin.
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Potência líquida de uma superfície exposta ao céu: $P = \sigma A\,(T^4 - T_c^4)$.
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Numa noite limpa, $T_c$ é baixa e a perda é grande, o que favorece a geada. Com nuvens, $T_c$ é maior e a perda é menor.