Efeitos na saúde e medidas de mitigação
A família da Beatriz mudou-se para uma casa em Vila Real e quer usar a cave como sala de estar. Um técnico mediu o ar e disse: «Há radão a mais.» Não se vê, não cheira e não faz barulho. Porque é que um gás tão discreto preocupa tanto as autoridades de saúde? E o que se pode fazer para o reduzir?
Porque é que o radão é perigoso
O radão-222 é um gás nobre radioativo: não reage quimicamente e, por isso, entra e sai dos pulmões sem ficar retido. O problema está no que acontece depois de ele se desintegrar.
O $^{222}\text{Rn}$ decai em sucessivos descendentes radioativos (polónio, chumbo, bismuto…). Estes já são sólidos, e fixam-se nas partículas de aerossóis que existem no ar (poeiras, fumo). Quando respiras, essas partículas ficam depositadas nas vias respiratórias.
Os descendentes emitem sobretudo radiação alfa. Fora do corpo, uma partícula alfa é travada por uma folha de papel ou pela camada de pele morta. Dentro dos pulmões, não há essa proteção: a emissão acontece mesmo ao lado das células vivas do tecido pulmonar.
Toda a energia da partícula é depositada num volume minúsculo. Isso pode danificar o ADN das células do epitélio brônquico, e uma célula com ADN danificado pode originar um cancro. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a exposição prolongada ao radão é a segunda causa de cancro do pulmão, a seguir ao tabaco.
Ao ser inalado, o radão e os seus descendentes radioativos — que se fixam em partículas de aerossóis — depositam-se nas vias respiratórias, onde emitem radiação alfa,…
Ao ser inalado, o radão e os seus descendentes radioativos — que se fixam em partículas de aerossóis — depositam-se nas vias respiratórias, onde emitem radiação alfa, como se representa na figura.
- a) As partículas alfa percorrem apenas algumas centésimas de milímetro nos tecidos. Explica porque é que, apesar desse percurso tão curto, a inalação de radão é perigosa para os pulmões.
- b) Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Direção-Geral da Saúde (DGS), a exposição prolongada ao radão é a segunda causa de cancro do pulmão, a seguir ao tabaco. Explica porque é que o risco é particularmente elevado para um fumador que viva numa casa com níveis elevados de radão.
- c) O ar exterior contém também radão, mas em concentrações muito baixas (cerca de $10\ \text{Bq/m}^3$). Justifica, a partir deste facto, porque é que o radão ao ar livre não constitui um problema de saúde pública.
Porque é que o risco é maior em espaços fechados
Ao ar livre, o radão que sai do solo dilui-se: a concentração típica é de cerca de $10\ \text{Bq/m}^3$. Numa cave ou num rés-do-chão mal ventilado, o gás entra pelo pavimento e fica retido. Como o ar quase não se renova, a concentração sobe, e com ela a atividade do gás e dos descendentes por cada litro de ar que respiras.
O risco depende de dois fatores:
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da concentração de radão no ar (em $\text{Bq/m}^3$);
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do tempo de exposição: passar horas por dia durante anos num espaço fechado pesa muito mais do que uma visita rápida.
Por isso o risco é elevado em habitações, onde se passa grande parte da vida, sobretudo em zonas graníticas, como Vila Real, a Guarda ou a Serra da Estrela. Em Portugal, o nível de referência nacional para o ar interior é de $300\ \text{Bq/m}^3$, fixado pelo Decreto-Lei n.º 108/2018.
Como reduzir o radão: selagem e ventilação
Reduzir o radão em casa é possível. As duas medidas mais comuns são:
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Selagem das fissuras do pavimento, das juntas e das passagens de tubagens: diminui a entrada de gás vindo do solo.
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Ventilação, natural ou forçada: renova o ar interior com ar exterior, onde a concentração é muito mais baixa.
A concentração interior resulta do equilíbrio entre o que entra e o que é removido. Com a ventilação forçada em permanência e a selagem feita, a concentração tende para um valor estável, próximo da do ar exterior (um pouco acima, porque ainda há alguma entrada residual).
Uma família de Vila Real usa diariamente, como sala de estar, uma cave onde uma campanha de medição indicou $900\ \text{Bq/m}^3$ de radão. As medidas de mitigação mais…
Uma família de Vila Real usa diariamente, como sala de estar, uma cave onde uma campanha de medição indicou $900\ \text{Bq/m}^3$ de radão. As medidas de mitigação mais comuns são a selagem das fissuras do pavimento e das juntas e a ventilação forçada, que renova o ar da cave com ar exterior (concentração típica de radão: cerca de $10\ \text{Bq/m}^3$).
- a) Supõe que, após a selagem e com a ventilação a funcionar em permanência, a concentração na cave estabiliza num valor próximo do dobro da concentração do ar exterior. Estima o valor final esperado e compara-o com o nível de referência de $300\ \text{Bq/m}^3$.
- b) Explica, do ponto de vista físico, de que modo atua cada uma das duas medidas de mitigação referidas.
- c) A meia-vida do radão-222 é de $3,8$ dias. Justifica por que razão deixar a cave simplesmente fechada «à espera que o radão desapareça» não resolve o problema.