Digestão extracelular
Deixas um pedaço de pão húmido esquecido num armário e, passados uns dias, aparecem bolores. O bolor não tem boca nem estômago. Então, como é que "come" o pão? E porque é que, no nosso caso, se diz que a digestão acontece "fora" das células, se o alimento nunca saiu do corpo?
Ingestão, digestão e absorção
Três palavras que se confundem muitas vezes, mas que designam etapas diferentes:
As moléculas dos alimentos (amido, proteínas, lípidos) são demasiado grandes para atravessar a membrana plasmática. Por isso, têm de ser hidrolisadas em moléculas pequenas, como glicose, aminoácidos, ácidos gordos e glicerol.
Há dois modos de digestão:
| Digestão intracelular | Digestão extracelular | |
|---|---|---|
| Onde atuam as enzimas | No interior da célula (vacúolo digestivo) | Fora das células: numa cavidade ou no meio exterior |
| Ordem das etapas | Ingestão → digestão → egestão | Ingestão (nos animais) → digestão → absorção → egestão |
| Exemplos | Ameba, paramécio | Fungos, bactérias decompositoras, tubo digestivo humano |
Os esquemas A e B representam, de forma simplificada, os dois grandes modos de digestão: num deles as enzimas atuam no interior de uma célula e, no outro, são libertadas…
Os esquemas A e B representam, de forma simplificada, os dois grandes modos de digestão: num deles as enzimas atuam no interior de uma célula e, no outro, são libertadas para uma cavidade onde se encontra o alimento. Observa-os com atenção.
- a) Identifica, justificando, qual dos esquemas corresponde à digestão intracelular e qual corresponde à digestão extracelular.
- b) Indica um exemplo de organismo em que ocorra, predominantemente, cada um dos modos de digestão representados.
- c) Explica uma vantagem da digestão extracelular quanto às dimensões das partículas de alimento que podem ser aproveitadas.
Digestão extracelular fora do corpo: fungos e bactérias
Os bolores, os cogumelos e muitas bactérias decompositoras não ingerem o alimento. Em vez disso, libertam enzimas para o meio que os rodeia. As enzimas digerem a matéria orgânica (o pão, uma folha caída, um tronco) e os organismos absorvem depois os nutrientes resultantes.
Esta forma de digestão tem uma consequência importante para os ecossistemas. Ao digerirem restos de seres vivos, os decompositores transformam matéria orgânica em substâncias simples que ficam disponíveis no solo para os produtores. Sem eles, a matéria ficaria "presa" nos cadáveres e nos detritos, e os ciclos da matéria interromper-se-iam.
Os fungos e muitas bactérias decompositoras, como os bolores que crescem num pão húmido, não ingerem o alimento: libertam enzimas para o meio que os rodeia e absorvem…
Os fungos e muitas bactérias decompositoras, como os bolores que crescem num pão húmido, não ingerem o alimento: libertam enzimas para o meio que os rodeia e absorvem depois os nutrientes resultantes da digestão.
- a) Classifica, justificando, o tipo de digestão destes organismos.
- b) Explica de que modo este tipo de digestão permite aos fungos e às bactérias desempenhar o papel de decompositores nos ecossistemas.
- c) Compara a digestão destes decompositores com a dos animais com tubo digestivo, indicando onde ocorre, em cada caso, a ação das enzimas.
Digestão extracelular dentro do corpo: o tubo digestivo
Nos animais, a digestão extracelular ocorre numa cavidade do próprio corpo: a cavidade do tubo digestivo. Esta cavidade comunica com o exterior, por isso, mesmo estando "dentro" do animal, é topologicamente exterior às células. As células que revestem o tubo ficam à volta da cavidade e as enzimas atuam na cavidade, fora das células.
No ser humano, as enzimas chegam à cavidade do tubo através de glândulas:
-
glândulas salivares (libertam saliva, com amílase salivar, para a boca);
-
fígado (produz bílis, que emulsiona os lípidos, e envia-a para o duodeno);
-
pâncreas (liberta o sumo pancreático, com várias enzimas, para o duodeno).
As glândulas anexas despejam os seus produtos através de canais que desembocam na cavidade do tubo.
Transformações mecânicas e químicas
Na boca, o alimento sofre dois tipos de transformação:
-
Mecânica: fragmentação do alimento pelos dentes e mistura com a saliva pela língua. Não altera a natureza química das moléculas, mas aumenta a superfície de contacto para as enzimas.
-
Química: hidrólise por enzimas. Por exemplo, a amílase salivar começa a transformar o amido em moléculas mais pequenas.
Numa aula de Biologia e Geologia, a Marta afirmou: «No ser humano a digestão é extracelular, mas isso não significa que ocorra fora do corpo.» a) Explica o significado…
Numa aula de Biologia e Geologia, a Marta afirmou: «No ser humano a digestão é extracelular, mas isso não significa que ocorra fora do corpo.»
- a) Explica o significado da afirmação da Marta, referindo a cavidade do tubo digestivo e a posição das células do seu revestimento.
- b) Indica duas glândulas anexas do sistema digestivo humano e explica como os seus produtos chegam à cavidade do tubo.
- c) Na boca ocorrem transformações mecânicas e químicas do alimento. Distingue os dois tipos de transformação e dá um exemplo de cada um.
Vantagens da digestão extracelular
Na digestão intracelular, o alimento tem de caber dentro da célula (por fagocitose). Na extracelular, as enzimas são libertadas para uma cavidade ou para o meio, pelo que se podem digerir partículas de alimento maiores do que a própria célula, ou mesmo um animal inteiro. Além disso:
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permite digerir grandes quantidades de alimento ao mesmo tempo;
-
as enzimas podem ser diferentes em cada zona do tubo digestivo, havendo uma especialização;
-
as células que absorvem não ficam expostas às enzimas, que as poderiam danificar.
De volta ao início: o bolor no pão não ingere o pão; liberta enzimas para ele e absorve os nutrientes. E no ser humano, o alimento está numa cavidade exterior às células, por isso a digestão é extracelular mesmo dentro do corpo.