Adaptações de herbívoros e carnívoros
Um lobo-ibérico na Serra da Peneda come carne e pouco mais. Uma vaca no Alentejo passa o dia inteiro a pastar. Ambos são mamíferos, mas os seus tubos digestivos são muito diferentes. Porquê? A resposta está naquilo que cada um come e na forma como o consegue digerir.
O que se come determina como se digere
Os alimentos não são todos igualmente fáceis de digerir.
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A carne é rica em proteínas e lípidos. As enzimas do próprio animal digerem-na com rapidez e a absorção é eficiente.
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Os vegetais têm paredes celulares de celulose. Esta é um polissacarídeo formado por muitas moléculas de glicose, mas ligadas de um modo que as enzimas dos mamíferos não conseguem quebrar.
Nenhum mamífero produz celulase. Os herbívoros só conseguem aproveitar a celulose com a ajuda de microrganismos (bactérias e protozoários) que a digerem por eles.
Por isso, os herbívoros comem muito, os alimentos são pouco digeríveis e precisam de ficar no tubo digestivo muito tempo. Nos carnívoros, a digestão é rápida.
Tubo digestivo: comprido ou curto?
O comprimento relativo do tubo digestivo (em múltiplos do comprimento do corpo) reflete o regime alimentar.
| Animal | Regime | Tubo digestivo (× comprimento do corpo) |
|---|---|---|
| Lobo-ibérico | carnívoro | cerca de 6 |
| Coelho | herbívoro | cerca de 10 |
| Vaca | herbívoro ruminante | cerca de 25 |
Há duas razões para esta relação:
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Digestibilidade. A carne é digerida e absorvida rapidamente, pelo que um tubo curto chega. Os vegetais são pouco digeríveis e contêm muitos materiais que resistem à digestão. É preciso mais tempo e mais superfície de absorção.
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Pouco valor nutritivo por quantidade. Um alimento vegetal fornece menos energia por grama. O herbívoro tem de processar grandes volumes, o que exige um tubo mais comprido e com zonas alargadas.
A tabela apresenta o comprimento aproximado do tubo digestivo de três mamíferos, em múltiplos do comprimento do corpo de cada animal. | Animal | Regime alimentar |…
A tabela apresenta o comprimento aproximado do tubo digestivo de três mamíferos, em múltiplos do comprimento do corpo de cada animal.
| Animal | Regime alimentar | Comprimento do tubo digestivo (vezes o comprimento do corpo) |
|---|---|---|
| Lobo-ibérico | carnívoro | cerca de 6 |
| Coelho | herbívoro | cerca de 10 |
| Vaca (ruminante) | herbívoro | cerca de 25 |
- a) Analisa os dados da tabela e estabelece a relação entre o regime alimentar e o comprimento relativo do tubo digestivo.
- b) Justifica a diferença observada entre o lobo-ibérico e o coelho, referindo a digestibilidade dos alimentos de cada um.
- c) A vaca e o coelho são ambos herbívoros, mas a vaca apresenta um valor muito superior. Explica esta diferença, referindo a estratégia digestiva dos ruminantes.
Câmaras de fermentação e bactérias simbiontes
Para digerir a celulose, os herbívoros têm câmaras de fermentação: zonas alargadas do tubo digestivo onde os alimentos ficam retidos muito tempo e vivem microrganismos.
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Herbívoros não ruminantes (coelho, cavalo): a fermentação ocorre sobretudo no cego, uma bolsa de grande dimensão entre o intestino delgado e o intestino grosso.
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Herbívoros ruminantes (vaca, ovelha, cabra): a fermentação ocorre numa câmara anterior, o rúmen, parte de um estômago com várias cavidades.
Os microrganismos vivem em simbiose (mutualismo) com o animal:
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o animal fornece abrigo, temperatura estável e alimento de forma contínua;
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os microrganismos produzem celulases, digerem a celulose e libertam compostos (como ácidos gordos) que o animal absorve e usa como fonte de energia. Muitos microrganismos acabam também por ser digeridos e fornecem proteínas.
A figura representa, à mesma escala, o tubo digestivo de dois mamíferos de dimensão corporal semelhante: um carnívoro e um herbívoro não ruminante. a) Identifica,…
A figura representa, à mesma escala, o tubo digestivo de dois mamíferos de dimensão corporal semelhante: um carnívoro e um herbívoro não ruminante.
- a) Identifica, justificando, qual dos esquemas corresponde ao herbívoro.
- b) Explica por que razão a digestão da celulose presente nos alimentos vegetais exige um tubo digestivo mais comprido e com câmaras de fermentação.
- c) Indica o papel das bactérias que vivem em simbiose no cego dos herbívoros.
De volta ao início: o lobo tem um tubo curto porque a carne se digere depressa. A vaca tem um tubo comprido e câmaras de fermentação porque depende de microrganismos para digerir a celulose.
Em resumo
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A celulose não é digerida pelas enzimas dos mamíferos; os herbívoros dependem de microrganismos simbiontes.
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Os herbívoros têm tubo digestivo proporcionalmente mais comprido do que os carnívoros, porque os vegetais são pouco digeríveis e pouco energéticos.
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As câmaras de fermentação (cego nos não ruminantes, rúmen nos ruminantes) retêm o alimento e alojam os microrganismos.
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Nos carnívoros, a digestão de proteínas e lípidos é rápida e um tubo curto basta.
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A simbiose é vantajosa para ambos: abrigo e alimento para os microrganismos, digestão da celulose para o animal.