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Direitos humanos e desenvolvimento · Direitos humanos

Justiça social e não discriminação

Dois candidatos igualmente qualificados enviam o currículo para o mesmo emprego em Braga. Um é chamado para a entrevista, o outro nem recebe resposta. Será que a diferença de tratamento tem alguma razão económica, ou será discriminação? Neste apartado aprendes a responder a esta pergunta com conceitos rigorosos e com números.

Justiça social e igualdade de oportunidades

A justiça social é a ideia de que uma sociedade deve distribuir de forma justa os direitos, as oportunidades e os recursos, para que ninguém fique de fora por razões que não controla (o local onde nasceu, o sexo, a origem étnica, o rendimento da família).

Repara que igualdade de oportunidades não é o mesmo que igualdade de resultados. Numa corrida, a igualdade de oportunidades garante que todos partem da mesma linha; não garante que todos chegam ao mesmo tempo.

A falta de igualdade de oportunidades está ligada à pobreza e à exclusão social. A pobreza é a falta de recursos para ter um nível de vida considerado mínimo na sociedade (em Portugal, mede-se pelo limiar de pobreza). A exclusão social vai além do dinheiro: é ficar afastado do emprego, da escola, da saúde, da participação na vida da comunidade. Quem nasce numa família pobre, num território isolado ou sofre discriminação tem mais dificuldade em estudar e em arranjar emprego, e o ciclo repete-se de geração em geração.

A Constituição da República Portuguesa (1976) consagra o princípio da igualdade: ninguém pode ser privilegiado ou prejudicado em razão de ascendência, sexo, raça, língua, religião, convicções ou condição social.

Pratica★☆☆Por começar
A justiça social exige igualdade de oportunidades: todas as pessoas devem poder concorrer ao emprego e à educação em condições justas. A discriminação pode ser direta,…

A justiça social exige igualdade de oportunidades: todas as pessoas devem poder concorrer ao emprego e à educação em condições justas. A discriminação pode ser direta, quando alguém é tratado desfavoravelmente por um motivo proibido, como o sexo, a origem étnica ou a deficiência, ou indireta, quando uma regra aparentemente neutra prejudica de forma desproporcionada um determinado grupo.

Classifica cada uma das situações seguintes como discriminação direta, discriminação indireta ou ausência de discriminação. Justifica cada uma das tuas respostas.

  1. a) Uma empresa publica um anúncio de emprego em que se lê: «Só serão admitidos candidatos do sexo masculino.»
  2. b) Uma loja exige a todos os candidatos a vendedor uma altura mínima de $1{,}75\ \text{m}$, sem que a altura seja relevante para as funções a desempenhar.
  3. c) Uma escola instala uma rampa de acesso e adapta uma casa de banho para alunos com mobilidade reduzida.
  4. d) Numa empresa, todas as reuniões de equipa são marcadas para o fim do dia, fora do horário normal de trabalho, o que dificulta a participação de quem tem filhos menores a cargo.
Resolver

Discriminação direta e indireta

Discriminar é tratar uma pessoa de forma desfavorável por pertencer a um grupo (sexo, origem étnica, religião, deficiência, idade, orientação sexual…) quando isso não tem justificação objetiva. Há dois tipos.

Tipo O que é Exemplo
Discriminação direta Tratamento desfavorável explicitamente baseado num motivo proibido Um anúncio de emprego que diz «só aceitamos homens»
Discriminação indireta Uma regra aparentemente neutra que prejudica de forma desproporcionada um grupo, sem justificação Exigir 1,85 m de altura para um lugar de escritório, o que exclui muito mais mulheres do que homens

Na discriminação direta, o motivo proibido está à vista. Na indireta, a regra parece igual para todos, mas o efeito recai sobre um grupo. Para a identificar, pergunta-te sempre duas coisas: a regra afeta mais um grupo do que os outros? e existe uma razão objetiva e proporcionada para a regra?

Nem toda a diferença de tratamento é discriminação. Exigir carta de condução a um motorista de autocarro é uma exigência objetiva, ligada à função, e aplica-se a todos pelo mesmo critério.

Pratica★★☆Por começar
O esquema seguinte resume como se analisa uma situação de desigualdade de tratamento no emprego ou na educação, mas as duas caixas finais estão por completar. a)…

O esquema seguinte resume como se analisa uma situação de desigualdade de tratamento no emprego ou na educação, mas as duas caixas finais estão por completar.

Tratamento desfavorável no emprego ou na educação baseado diretamente num motivo proibido (sexo, origem, deficiência) critério aparentemente neutro com efeito desproporcionado num grupo ? ?
  1. a) Completa o esquema, indicando o conceito que corresponde a cada uma das caixas assinaladas com «?».
  2. b) Aplica o esquema à seguinte situação: uma empresa de Braga recusa contratar um candidato qualificado pelo facto de ter nascido noutro país. Indica o tipo de discriminação em causa e justifica.
  3. c) Para corrigir desigualdades históricas, os Estados podem adotar medidas de ação positiva, isto é, vantagens temporárias atribuídas a grupos desfavorecidos. Indica dois exemplos de medidas de ação positiva que existam em Portugal e explica em que consistem.
  4. d) Há quem considere que as medidas de ação positiva contradizem o princípio da igualdade. Apresenta um argumento a favor e um argumento contra estas medidas.
Resolver

Discriminação positiva e negativa

A discriminação pode ser vista de duas formas, conforme o objetivo e o efeito.

  • Discriminação negativa: prejudica um grupo (étnica, económica, religiosa ou de género). É ilegal e é o que vimos até agora.

  • Discriminação positiva (ou ação positiva): medidas temporárias que dão vantagens a grupos historicamente desfavorecidos, para corrigir desigualdades e reposicionar todos na mesma linha de partida.

Exemplos de ação positiva: quotas para pessoas com deficiência em concursos públicos, bolsas de estudo para alunos de famílias com poucos rendimentos, ou as quotas de paridade nas listas eleitorais (a chamada «lei da paridade»).

As medidas de ação positiva devem ser temporárias e proporcionadas: deixam de se justificar quando a desigualdade que pretendem corrigir desaparece. Os defensores dizem que sem elas a igualdade formal não chega; os críticos receiam que o critério do mérito fique em segundo plano. Convém conheceres os dois argumentos.

Medir a desigualdade: a disparidade salarial

Uma forma de medir a discriminação de género no mercado de trabalho é a disparidade salarial entre mulheres e homens: a diferença entre a retribuição média dos homens e das mulheres, em percentagem da retribuição média dos homens.

Pratica★★★Por começar
A tabela seguinte apresenta dados fictícios, mas plausíveis, sobre a retribuição média mensal dos trabalhadores de uma empresa portuguesa: | Grupo | Retribuição média…

A tabela seguinte apresenta dados fictícios, mas plausíveis, sobre a retribuição média mensal dos trabalhadores de uma empresa portuguesa:

Grupo Retribuição média mensal
Homens $1\,450\ \text{€}$
Mulheres $1\,305\ \text{€}$
  1. a) Calcula a diferença entre as duas retribuições médias e exprime-a em percentagem da retribuição média dos homens.
  2. b) Na União Europeia, a diferença salarial média entre homens e mulheres ronda os $13\%$, segundo dados recentes do Eurostat. Compara o valor que calculaste em a) com esse valor de referência e comenta.
  3. c) Uma diferença salarial média não prova, por si só, a existência de discriminação: pode resultar, por exemplo, das profissões exercidas, do trabalho a tempo parcial ou das interrupções de carreira. Explica por que razão alguns destes fatores podem, eles próprios, esconder desigualdades de oportunidades ou discriminação indireta.
  4. d) Indica duas medidas, do Estado ou das empresas, que contribuam para a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no trabalho, e justifica a tua escolha.
Resolver

De volta ao início: se dois candidatos igualmente qualificados são tratados de forma diferente por pertencerem a um grupo, isso é discriminação, e é a igualdade de oportunidades que estamos a defender.

Em resumo

  • Justiça social: distribuição justa de direitos, oportunidades e recursos; a igualdade de oportunidades garante o mesmo ponto de partida, não o mesmo resultado.

  • Pobreza e exclusão social reforçam-se com a falta de oportunidades.

  • Discriminação direta: tratamento desfavorável por motivo proibido. Indireta: regra aparentemente neutra com efeito desproporcionado sobre um grupo, sem justificação objetiva.

  • Discriminação negativa prejudica; positiva (ação positiva) é uma vantagem temporária e proporcionada a grupos desfavorecidos.

  • Disparidade salarial $= \dfrac{R_H - R_M}{R_H} \times 100$; compara-se com a média da UE (cerca de $13\ \%$).

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