Relação de trocas, dívida externa e blocos económicos
Um país produz cacau e compra telemóveis, combustíveis e máquinas. Há dez anos, uma tonelada de cacau pagava vários telemóveis; hoje paga menos. Ninguém trabalhou menos, mas o país ficou mais pobre nas trocas. Porquê? E que podem fazer os países, sozinhos ou em grupo, para mudar este jogo? Vais perceber como se mede esta perda, como a dívida externa a agrava e que blocos e organizações tentam regular a economia mundial.
Relação de trocas
Um país vende e compra no estrangeiro. O que importa não é só quanto exporta, mas a que preço vende em comparação com o preço a que compra.
Os preços são dados em números-índice (base 100 num ano de referência). Lê-se assim:
-
$RT > 100$: os preços das exportações subiram mais (ou desceram menos) do que os das importações. Com cada unidade exportada compra-se mais importações: evolução favorável.
-
$RT < 100$: com cada unidade exportada compra-se menos importações: evolução desfavorável, a chamada degradação dos termos de troca.
-
$RT = 100$: o poder de compra das exportações não mudou.
A fórmula tem uma lógica simples: se o numerador cresce, o país vende mais caro; se o denominador cresce, compra mais caro.
Neste gráfico (índices dos preços), $RT_{2024} = \dfrac{90}{125} \cdot 100 = 72$. A relação de trocas caiu 28 %.
A relação de trocas (também designada termos de intercâmbio) compara os preços que um país recebe pelas suas exportações com os preços que paga pelas importações: $$RT =…
A relação de trocas (também designada termos de intercâmbio) compara os preços que um país recebe pelas suas exportações com os preços que paga pelas importações:
$$RT = \frac{\text{índice de preços das exportações}}{\text{índice de preços das importações}} \cdot 100$$Um país registou, num ano, um índice de preços das exportações de $110$ e um índice de preços das importações de $100$; no ano seguinte, os índices passaram para $108$ e $120$, respetivamente.
- a) Calcula a relação de trocas em cada um dos dois anos.
- b) Indica se a relação de trocas evoluiu de forma favorável ou desfavorável para o país, justificando.
- c) Explica, com as tuas palavras, o que significa uma relação de trocas inferior a $100$ para o esforço de exportação de um país.
Polarização das trocas e degradação dos termos de troca
A polarização das trocas significa que as trocas mundiais se concentram entre poucos países (sobretudo os desenvolvidos) e que os países em desenvolvimento têm uma inserção desigual nelas. Muitos exportam poucos produtos, em geral produtos primários (café, cacau, algodão, petróleo, minérios), e importam produtos industriais e tecnológicos.
Isto tem consequências que explicam a degradação dos termos de troca:
-
Os preços dos produtos primários oscilam muito e tendem a crescer pouco, porque a procura de alimentos e de matérias-primas aumenta devagar quando o rendimento sobe e porque há muitos países a vender o mesmo produto.
-
Os produtos industriais e tecnológicos têm mais valor acrescentado e preços mais estáveis ou crescentes.
-
Um país com poucas exportações fica dependente: se o preço do seu principal produto cai, a receita externa cai de uma vez.
A saída habitual é a diversificação: produzir e exportar bens e serviços com mais valor acrescentado.
Um país africano exporta essencialmente matérias-primas (cacau e café) e importa produtos industriais e combustíveis. O gráfico mostra a evolução dos índices de preços…
Um país africano exporta essencialmente matérias-primas (cacau e café) e importa produtos industriais e combustíveis. O gráfico mostra a evolução dos índices de preços das suas exportações e das suas importações:
- a) Calcula a relação de trocas do país em 2020 e em 2024, usando os valores do gráfico.
- b) Interpreta a evolução obtida: quantas unidades de exportações são necessárias, em 2024, para comprar a mesma unidade de importações que em 2020?
- c) Relaciona esta evolução com a polarização dos intercâmbios entre países exportadores de produtos primários e países exportadores de produtos industriais, e explica porque razão ela tende a agravar o desnível de desenvolvimento.
Dívida externa
Quando um país gasta mais no estrangeiro do que recebe, financia-se com empréstimos de outros países, de bancos ou de organizações internacionais. O que deve a não residentes é a dívida externa. Os países em desenvolvimento pedem emprestado, muitas vezes em dólares, para investir; o problema surge quando os juros e as amortizações ocupam uma parte enorme das receitas.
Três rácios dão uma ideia do peso da dívida:
$$\text{dívida/PIB} = \frac{\text{dívida externa}}{\text{PIB}} \cdot 100 \qquad \text{dívida/exportações} = \frac{\text{dívida externa}}{\text{exportações anuais}}$$ $$\text{peso do serviço da dívida} = \frac{\text{serviço da dívida}}{\text{exportações anuais}} \cdot 100$$Compara-se com as exportações porque a dívida é em moeda estrangeira, e são as exportações que a trazem para o país.
Quando o serviço da dívida é elevado, sobra pouco para a saúde, a educação e o investimento. O crescimento fica fraco, a capacidade de pagar diminui e o país volta a pedir emprestado: é o ciclo vicioso da dívida.
A dívida externa é um dos mecanismos que prende muitos países em desenvolvimento à pobreza. Considera o caso — fictício, mas realista — da República da Zâmbara: |…
A dívida externa é um dos mecanismos que prende muitos países em desenvolvimento à pobreza. Considera o caso — fictício, mas realista — da República da Zâmbara:
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Dívida externa total | 45 mil milhões de dólares |
| PIB | 60 mil milhões de dólares |
| Exportações anuais de bens e serviços | 12 mil milhões de dólares |
| Serviço da dívida anual (juros e amortizações) | 3 mil milhões de dólares |
- a) Calcula a dívida externa em percentagem do PIB e o rácio entre a dívida externa e as exportações anuais.
- b) Determina que percentagem das receitas de exportação é absorvida pelo serviço da dívida e explica o problema que isso representa para o financiamento da saúde e da educação.
- c) Explica o «círculo vicioso da dívida»: por que razão um país muito endividado tende a endividar-se ainda mais.
- d) Indica duas medidas já aplicadas pela comunidade internacional para aliviar a dívida dos países mais pobres (por exemplo, no quadro das Nações Unidas ou do FMI) e comenta os seus limites.
Formas de integração económica
Para ganharem dimensão de mercado e peso nas negociações, muitos países juntam-se em blocos económicos regionais. A integração pode ser informal (acordos pontuais, cooperação de facto entre regiões) ou formal (tratados que criam regras). Na integração formal há graus, do mais leve ao mais profundo:
| Forma | O que acontece | Exemplos |
|---|---|---|
| Zona de comércio livre | Eliminam-se as tarifas entre os membros, mas cada um mantém a sua política comercial face a terceiros. | EFTA; ACEUM (Estados Unidos, Canadá, México); ASEAN (em evolução) |
| União aduaneira | Além de comércio livre, há uma tarifa externa comum. | União Aduaneira da UE (tarifa externa comum); Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai), com exceções |
| Mercado comum / mercado único | Livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. | Mercado Único da UE |
| União económica | Mercado comum com políticas económicas coordenadas. | UE (em parte) |
| União monetária | Moeda única e banco central comum. | Zona euro (Banco Central Europeu) |
Cada degrau inclui os anteriores e exige que os países cedam mais soberania. Portugal pertence à UE (desde 1986, então CEE), ao mercado único e à zona euro. Em África há a CEDEAO e a SADC; na América Latina, o Mercosul; na Ásia, a ASEAN.
Regular a economia mundial
Não existe um «governo mundial». Ainda assim, há organizações, blocos e fóruns que tentam pôr regras à economia global: comércio, finanças, ambiente e desenvolvimento. Mas decidem de forma diferente e nem sempre estão de acordo: aqui entra a problematização.
| Estrutura | Natureza | Função principal | Exemplos de membros |
|---|---|---|---|
| UE | Bloco de integração regional (mercado único e zona euro) | Integrar economias; política comercial comum | Portugal, França, Alemanha… (27) |
| OMC (sucedeu ao GATT, 1995) | Organização internacional de regulação do comércio | Negociar regras de comércio e resolver diferendos | Mais de 160 países, incluindo a China e a UE |
| UNCTAD (CNUCED) | Órgão da ONU para o comércio e o desenvolvimento | Apoiar os países em desenvolvimento na inserção no comércio | Estados-membros da ONU |
| BRICS | Grupo informal de coordenação de economias emergentes | Dar voz às economias emergentes | Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (e outros) |
| G20 | Fórum de coordenação económica | Coordenar políticas económicas e financeiras globais | G7 e grandes emergentes (China, Índia, Brasil…) e a União Africana |
| G7 | Grupo informal de economias avançadas | Concertar posições políticas e económicas | Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido |
Alguns pontos de problematização:
-
A OMC promove o comércio livre, mas os países em desenvolvimento queixam-se de regras que favorecem os mais fortes e de subsídios agrícolas que afetam os seus produtores.
-
A UNCTAD defende políticas para os países em desenvolvimento (estabilizar os preços dos produtos primários, aliviar a dívida), mas não tem poder de impor decisões.
-
O G7 e os BRICS são grupos informais: coordenam, mas não têm tratados vinculativos. O G20 é mais representativo, mas continua a ser um fórum e não uma organização com poderes de decisão.
A economia mundial não tem um «governo», mas dispõe de organizações, blocos e fóruns que tentam regular o seu funcionamento. | Organização ou grupo | Natureza | Membros…
A economia mundial não tem um «governo», mas dispõe de organizações, blocos e fóruns que tentam regular o seu funcionamento.
| Organização ou grupo | Natureza | Membros (exemplos) | Função principal |
|---|---|---|---|
| UE | |||
| OMC | |||
| CNUCED | |||
| BRICS | |||
| G20 | |||
| G7 |
- a) Completa a tabela, indicando a natureza de cada estrutura (bloco de integração regional, organização internacional de regulação do comércio, fórum da ONU para o comércio e o desenvolvimento, grupo informal de coordenação), dois ou três membros e a função principal de cada uma.
- b) Distingue o G7 do G20 quanto à composição e à representatividade e explica por que razão o G20 ganhou importância após a crise financeira internacional de 2008.
- c) Os BRICS alargaram-se recentemente a novos membros e defendem uma «ordem mundial multipolar». Explica o que significa esta expressão e que consequências pode ter para a governação da economia mundial.
- d) Indica em quais destas estruturas Portugal participa, diretamente ou através da União Europeia, e justifica.
Voltando ao início: o cacau compra menos telemóveis porque a relação de trocas se degradou, o peso da dívida limita o investimento que permitiria diversificar a economia, e é por isso que os países procuram blocos e organizações em que a sua voz conte.
Em resumo
-
A relação de trocas é $\dfrac{\text{índice de preços das exportações}}{\text{índice de preços das importações}} \cdot 100$: abaixo de 100, o país compra menos importações com as mesmas exportações.
-
A polarização das trocas e a dependência de produtos primários explicam a degradação dos termos de troca de muitos países em desenvolvimento.
-
A dívida externa mede-se em relação ao PIB e às exportações; o serviço da dívida (juros e amortizações) pode absorver recursos que faltam à saúde, à educação e ao investimento.
-
A integração económica tem graus: zona de comércio livre, união aduaneira, mercado comum, união económica e união monetária.
-
A economia mundial é regulada por organizações e fóruns diferentes (UE, OMC, UNCTAD, BRICS, G20, G7), com poderes e membros distintos: importa saber o que cada um pode, de facto, decidir.