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12.º ano A · Economia C
A globalização e a regionalização económica · Polarização dos intercâmbios e governança da economia mundial

Relação de trocas, dívida externa e blocos económicos

Um país produz cacau e compra telemóveis, combustíveis e máquinas. Há dez anos, uma tonelada de cacau pagava vários telemóveis; hoje paga menos. Ninguém trabalhou menos, mas o país ficou mais pobre nas trocas. Porquê? E que podem fazer os países, sozinhos ou em grupo, para mudar este jogo? Vais perceber como se mede esta perda, como a dívida externa a agrava e que blocos e organizações tentam regular a economia mundial.

Relação de trocas

Um país vende e compra no estrangeiro. O que importa não é só quanto exporta, mas a que preço vende em comparação com o preço a que compra.

Os preços são dados em números-índice (base 100 num ano de referência). Lê-se assim:

  • $RT > 100$: os preços das exportações subiram mais (ou desceram menos) do que os das importações. Com cada unidade exportada compra-se mais importações: evolução favorável.

  • $RT < 100$: com cada unidade exportada compra-se menos importações: evolução desfavorável, a chamada degradação dos termos de troca.

  • $RT = 100$: o poder de compra das exportações não mudou.

A fórmula tem uma lógica simples: se o numerador cresce, o país vende mais caro; se o denominador cresce, compra mais caro.

Gráfico com dois índices de preços entre 2020 e 2024: as exportações descem de 100 para 90 e as importações sobem de 100 para 125. 100 90 125 2020 2024 Exportações Importações

Neste gráfico (índices dos preços), $RT_{2024} = \dfrac{90}{125} \cdot 100 = 72$. A relação de trocas caiu 28 %.

Pratica★☆☆Por começar
A relação de trocas (também designada termos de intercâmbio) compara os preços que um país recebe pelas suas exportações com os preços que paga pelas importações: $$RT =…

A relação de trocas (também designada termos de intercâmbio) compara os preços que um país recebe pelas suas exportações com os preços que paga pelas importações:

$$RT = \frac{\text{índice de preços das exportações}}{\text{índice de preços das importações}} \cdot 100$$

Um país registou, num ano, um índice de preços das exportações de $110$ e um índice de preços das importações de $100$; no ano seguinte, os índices passaram para $108$ e $120$, respetivamente.

  1. a) Calcula a relação de trocas em cada um dos dois anos.
  2. b) Indica se a relação de trocas evoluiu de forma favorável ou desfavorável para o país, justificando.
  3. c) Explica, com as tuas palavras, o que significa uma relação de trocas inferior a $100$ para o esforço de exportação de um país.
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Polarização das trocas e degradação dos termos de troca

A polarização das trocas significa que as trocas mundiais se concentram entre poucos países (sobretudo os desenvolvidos) e que os países em desenvolvimento têm uma inserção desigual nelas. Muitos exportam poucos produtos, em geral produtos primários (café, cacau, algodão, petróleo, minérios), e importam produtos industriais e tecnológicos.

Isto tem consequências que explicam a degradação dos termos de troca:

  • Os preços dos produtos primários oscilam muito e tendem a crescer pouco, porque a procura de alimentos e de matérias-primas aumenta devagar quando o rendimento sobe e porque há muitos países a vender o mesmo produto.

  • Os produtos industriais e tecnológicos têm mais valor acrescentado e preços mais estáveis ou crescentes.

  • Um país com poucas exportações fica dependente: se o preço do seu principal produto cai, a receita externa cai de uma vez.

A saída habitual é a diversificação: produzir e exportar bens e serviços com mais valor acrescentado.

Pratica★★☆Por começar
Um país africano exporta essencialmente matérias-primas (cacau e café) e importa produtos industriais e combustíveis. O gráfico mostra a evolução dos índices de preços…

Um país africano exporta essencialmente matérias-primas (cacau e café) e importa produtos industriais e combustíveis. O gráfico mostra a evolução dos índices de preços das suas exportações e das suas importações:

índices (base 100 em 2020) 100 105 110 115 120 2020 2021 2022 2023 2024 100 104 110 112 115 103 109 114 118 Preços das exportações Preços das importações
  1. a) Calcula a relação de trocas do país em 2020 e em 2024, usando os valores do gráfico.
  2. b) Interpreta a evolução obtida: quantas unidades de exportações são necessárias, em 2024, para comprar a mesma unidade de importações que em 2020?
  3. c) Relaciona esta evolução com a polarização dos intercâmbios entre países exportadores de produtos primários e países exportadores de produtos industriais, e explica porque razão ela tende a agravar o desnível de desenvolvimento.
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Dívida externa

Quando um país gasta mais no estrangeiro do que recebe, financia-se com empréstimos de outros países, de bancos ou de organizações internacionais. O que deve a não residentes é a dívida externa. Os países em desenvolvimento pedem emprestado, muitas vezes em dólares, para investir; o problema surge quando os juros e as amortizações ocupam uma parte enorme das receitas.

Três rácios dão uma ideia do peso da dívida:

$$\text{dívida/PIB} = \frac{\text{dívida externa}}{\text{PIB}} \cdot 100 \qquad \text{dívida/exportações} = \frac{\text{dívida externa}}{\text{exportações anuais}}$$ $$\text{peso do serviço da dívida} = \frac{\text{serviço da dívida}}{\text{exportações anuais}} \cdot 100$$

Compara-se com as exportações porque a dívida é em moeda estrangeira, e são as exportações que a trazem para o país.

Ciclo vicioso da dívida: dívida elevada, serviço da dívida que absorve exportações, menos saúde, educação e investimento, menos crescimento e novos empréstimos. Dívida elevada e juros a pagar Serviço da dívida absorve exportações Menos saúde, educação e investimento Menos crescimento e menos exportações

Quando o serviço da dívida é elevado, sobra pouco para a saúde, a educação e o investimento. O crescimento fica fraco, a capacidade de pagar diminui e o país volta a pedir emprestado: é o ciclo vicioso da dívida.

Pratica★★☆Por começar
A dívida externa é um dos mecanismos que prende muitos países em desenvolvimento à pobreza. Considera o caso — fictício, mas realista — da República da Zâmbara: |…

A dívida externa é um dos mecanismos que prende muitos países em desenvolvimento à pobreza. Considera o caso — fictício, mas realista — da República da Zâmbara:

Indicador Valor
Dívida externa total 45 mil milhões de dólares
PIB 60 mil milhões de dólares
Exportações anuais de bens e serviços 12 mil milhões de dólares
Serviço da dívida anual (juros e amortizações) 3 mil milhões de dólares
  1. a) Calcula a dívida externa em percentagem do PIB e o rácio entre a dívida externa e as exportações anuais.
  2. b) Determina que percentagem das receitas de exportação é absorvida pelo serviço da dívida e explica o problema que isso representa para o financiamento da saúde e da educação.
  3. c) Explica o «círculo vicioso da dívida»: por que razão um país muito endividado tende a endividar-se ainda mais.
  4. d) Indica duas medidas já aplicadas pela comunidade internacional para aliviar a dívida dos países mais pobres (por exemplo, no quadro das Nações Unidas ou do FMI) e comenta os seus limites.
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Formas de integração económica

Para ganharem dimensão de mercado e peso nas negociações, muitos países juntam-se em blocos económicos regionais. A integração pode ser informal (acordos pontuais, cooperação de facto entre regiões) ou formal (tratados que criam regras). Na integração formal há graus, do mais leve ao mais profundo:

Escada de cinco degraus com as formas de integração económica: zona de comércio livre, união aduaneira, mercado comum, união económica e união monetária. Zona de comércio livre União aduaneira Mercado comum União económica União monetária
Forma O que acontece Exemplos
Zona de comércio livre Eliminam-se as tarifas entre os membros, mas cada um mantém a sua política comercial face a terceiros. EFTA; ACEUM (Estados Unidos, Canadá, México); ASEAN (em evolução)
União aduaneira Além de comércio livre, há uma tarifa externa comum. União Aduaneira da UE (tarifa externa comum); Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai), com exceções
Mercado comum / mercado único Livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Mercado Único da UE
União económica Mercado comum com políticas económicas coordenadas. UE (em parte)
União monetária Moeda única e banco central comum. Zona euro (Banco Central Europeu)

Cada degrau inclui os anteriores e exige que os países cedam mais soberania. Portugal pertence à UE (desde 1986, então CEE), ao mercado único e à zona euro. Em África há a CEDEAO e a SADC; na América Latina, o Mercosul; na Ásia, a ASEAN.

Regular a economia mundial

Não existe um «governo mundial». Ainda assim, há organizações, blocos e fóruns que tentam pôr regras à economia global: comércio, finanças, ambiente e desenvolvimento. Mas decidem de forma diferente e nem sempre estão de acordo: aqui entra a problematização.

Estrutura Natureza Função principal Exemplos de membros
UE Bloco de integração regional (mercado único e zona euro) Integrar economias; política comercial comum Portugal, França, Alemanha… (27)
OMC (sucedeu ao GATT, 1995) Organização internacional de regulação do comércio Negociar regras de comércio e resolver diferendos Mais de 160 países, incluindo a China e a UE
UNCTAD (CNUCED) Órgão da ONU para o comércio e o desenvolvimento Apoiar os países em desenvolvimento na inserção no comércio Estados-membros da ONU
BRICS Grupo informal de coordenação de economias emergentes Dar voz às economias emergentes Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (e outros)
G20 Fórum de coordenação económica Coordenar políticas económicas e financeiras globais G7 e grandes emergentes (China, Índia, Brasil…) e a União Africana
G7 Grupo informal de economias avançadas Concertar posições políticas e económicas Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido

Alguns pontos de problematização:

  • A OMC promove o comércio livre, mas os países em desenvolvimento queixam-se de regras que favorecem os mais fortes e de subsídios agrícolas que afetam os seus produtores.

  • A UNCTAD defende políticas para os países em desenvolvimento (estabilizar os preços dos produtos primários, aliviar a dívida), mas não tem poder de impor decisões.

  • O G7 e os BRICS são grupos informais: coordenam, mas não têm tratados vinculativos. O G20 é mais representativo, mas continua a ser um fórum e não uma organização com poderes de decisão.

Pratica★★★Por começar
A economia mundial não tem um «governo», mas dispõe de organizações, blocos e fóruns que tentam regular o seu funcionamento. | Organização ou grupo | Natureza | Membros…

A economia mundial não tem um «governo», mas dispõe de organizações, blocos e fóruns que tentam regular o seu funcionamento.

Organização ou grupo Natureza Membros (exemplos) Função principal
UE
OMC
CNUCED
BRICS
G20
G7
  1. a) Completa a tabela, indicando a natureza de cada estrutura (bloco de integração regional, organização internacional de regulação do comércio, fórum da ONU para o comércio e o desenvolvimento, grupo informal de coordenação), dois ou três membros e a função principal de cada uma.
  2. b) Distingue o G7 do G20 quanto à composição e à representatividade e explica por que razão o G20 ganhou importância após a crise financeira internacional de 2008.
  3. c) Os BRICS alargaram-se recentemente a novos membros e defendem uma «ordem mundial multipolar». Explica o que significa esta expressão e que consequências pode ter para a governação da economia mundial.
  4. d) Indica em quais destas estruturas Portugal participa, diretamente ou através da União Europeia, e justifica.
Resolver

Voltando ao início: o cacau compra menos telemóveis porque a relação de trocas se degradou, o peso da dívida limita o investimento que permitiria diversificar a economia, e é por isso que os países procuram blocos e organizações em que a sua voz conte.

Em resumo

  • A relação de trocas é $\dfrac{\text{índice de preços das exportações}}{\text{índice de preços das importações}} \cdot 100$: abaixo de 100, o país compra menos importações com as mesmas exportações.

  • A polarização das trocas e a dependência de produtos primários explicam a degradação dos termos de troca de muitos países em desenvolvimento.

  • A dívida externa mede-se em relação ao PIB e às exportações; o serviço da dívida (juros e amortizações) pode absorver recursos que faltam à saúde, à educação e ao investimento.

  • A integração económica tem graus: zona de comércio livre, união aduaneira, mercado comum, união económica e união monetária.

  • A economia mundial é regulada por organizações e fóruns diferentes (UE, OMC, UNCTAD, BRICS, G20, G7), com poderes e membros distintos: importa saber o que cada um pode, de facto, decidir.

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