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A globalização e a regionalização económica · A globalização: conceitos, agentes e fluxos

Fluxos globais: investimento, migrações e turismo

A Beatriz estuda em Lisboa, a tia emigrou para a Suíça, o vizinho veio de Cabo Verde e, no verão, a rua enche-se de turistas. Uma fábrica perto de casa pertence a uma empresa estrangeira. Tudo isto são fluxos: movimentos de capital, de pessoas e de visitantes entre países. Porque é que estes fluxos aumentaram tanto e o que trazem a uma economia como a portuguesa? É isso que vais perceber nesta página.

Fluxos de capital e IDE

Quando se fala de «dinheiro que circula entre países», há vários tipos de fluxos de capital:

Tipo de fluxo O que é Exemplo
Investimentos Compra de ativos noutro país Uma empresa abre uma fábrica no estrangeiro
Operações de crédito Empréstimos de bancos a clientes de outros países Um banco financia uma empresa estrangeira
Empréstimos Fundos cedidos a Estados ou instituições, com juros Um país pede dinheiro a organizações internacionais

Dentro dos investimentos, distinguem-se dois tipos:

O investimento de carteira é diferente: é a compra de ações ou obrigações em bolsa, sem intenção de gerir a empresa. É mais volátil, porque se vende com um clique.

Comparação entre investimento direto estrangeiro, que cria uma fábrica, e investimento de carteira, que compra ações em bolsa. IDECarteira Cria ou compra uma fábricaControlo da gestãoLongo prazoEstável Compra de ações em bolsaSem controlo da gestãoCurto prazo possívelVolátil

O IDE evolui com a conjuntura mundial. Em tempos de crise ou de incerteza, as empresas adiam projetos e o IDE cai; quando a economia recupera, volta a subir. Para analisar a evolução, compara valores ao longo dos anos e calcula a taxa de variação:

$$\text{t.v.} = \frac{V_f - V_i}{V_i}\times 100$$
Pratica★☆☆Por começar
O investimento direto estrangeiro (IDE) é uma das faces mais visíveis da globalização: uma empresa de um país instala-se noutro, criando ou adquirindo unidades…

O investimento direto estrangeiro (IDE) é uma das faces mais visíveis da globalização: uma empresa de um país instala-se noutro, criando ou adquirindo unidades produtivas. A tabela mostra a evolução aproximada dos fluxos mundiais de IDE (fonte: CNUCED; valores arredondados):

Ano Fluxos mundiais de IDE (biliões de dólares)
2019 1,5
2020 1,0
2021 1,6
2022 1,5
2023 1,3
  1. a) Explica o que distingue o IDE da simples compra de ações de uma empresa estrangeira em bolsa (investimento de carteira).
  2. b) Descreve a evolução registada entre 2019 e 2023, identificando o ano de rutura e uma possível explicação para ela.
  3. c) A fábrica da AutoEuropa, em Palmela, resultou de IDE na economia portuguesa. Indica dois efeitos positivos deste tipo de investimento e um risco da dependência dele.
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Migrações

As migrações são deslocações de pessoas que mudam de residência. Classificam-se assim:

  • Internas: dentro do mesmo país (por exemplo, do interior para o litoral, ou do campo para a cidade).

  • Externas: entre países. Quem sai é emigrante; quem chega é imigrante.

A nível mundial, o número de migrantes internacionais tem aumentado de forma contínua nas últimas décadas (a ONU estima-os em cerca de 280 milhões em 2020), impulsionado pelas diferenças de rendimento, pelos conflitos e pela redução dos custos de transporte e de comunicação. Portugal tem uma longa tradição de emigração: estima-se que mais de 2 milhões de portugueses vivam no estrangeiro. Mas, nas últimas décadas, tornou-se também país de imigração: o número de residentes estrangeiros aumentou muito, o que se relaciona com a procura de mão de obra, o turismo, a língua comum (CPLP) e a estabilidade do país.

Para medir o peso de um fluxo, usa a taxa de variação e a proporção em relação à população:

$$\text{proporção} = \frac{\text{residentes estrangeiros}}{\text{população residente}}\times 100$$

As migrações têm efeitos económicos: aumentam a mão de obra e as contribuições para a Segurança Social, ajudam a atenuar o envelhecimento, mas exigem políticas de integração (habitação, escola, língua). Nos países de origem, as remessas dos emigrantes ajudam as famílias e a balança de pagamentos, embora a saída de jovens qualificados possa ser uma perda.

Pratica★★☆Por começar
Portugal é, historicamente, um país de emigração — estima-se que mais de 2 milhões de portugueses vivam no estrangeiro — mas tornou-se, nas últimas décadas, também um…

Portugal é, historicamente, um país de emigração — estima-se que mais de 2 milhões de portugueses vivam no estrangeiro — mas tornou-se, nas últimas décadas, também um país de imigração (fonte: SEF/AIMA; valores aproximados):

Ano Residentes estrangeiros em Portugal (milhares)
2015 400
2019 590
2021 715
2023 1 045
  1. a) Calcula a variação absoluta e a variação percentual do número de residentes estrangeiros entre 2015 e 2023.
  2. b) Sabendo que a população residente em Portugal é de cerca de $10,4$ milhões, determina o peso aproximado dos residentes estrangeiros no total da população, em 2023.
  3. c) As remessas dos emigrantes portugueses no estrangeiro rondam os $3,8$ mil milhões de euros por ano. Explica o papel destas remessas na economia portuguesa, relacionando-as com a balança de pagamentos.
  4. d) Indica duas causas da vaga de emigração de jovens qualificados no período de 2011 a 2014 e duas causas da recente imigração para Portugal.
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Turismo

O turismo é um fluxo de pessoas que viajam temporariamente, sem mudar de residência. Cresceu com a baixa dos custos de transporte (voos de baixo custo), a Internet (reservas online), o aumento do rendimento e do tempo livre.

A nível mundial, as chegadas de turistas internacionais cresceram de forma quase contínua nas últimas décadas, ultrapassando os mil milhões por ano antes da pandemia (fonte: Organização Mundial do Turismo), com uma queda acentuada em 2020 e uma recuperação posterior.

Em Portugal, o turismo é um pilar da economia: direta e indiretamente, representa cerca de 15 % do PIB. Exporta-se sol, praia, gastronomia, vinho, património e eventos. As receitas turísticas entram como exportação de serviços.

Mas depende de fatores externos. Em 2020, a pandemia parou as viagens e as receitas caíram de forma brusca, para depois recuperarem. Esta vulnerabilidade mostra o risco de depender de um só setor.

Vantagens Vulnerabilidades
Criação de emprego e receitas em divisas Dependência de choques externos (pandemia, crises)
Dinamiza regiões (Algarve, Madeira, Porto) Emprego sazonal e salários baixos
Valoriza património e produtos locais Pressão sobre habitação, recursos e ambiente
Equilibra a balança de pagamentos Pouca diversificação da economia
Pratica★★★Por começar
O turismo é um dos fluxos mais dinâmicos da globalização e um pilar da economia portuguesa: direta e indiretamente, representa cerca de 15 % do PIB. O gráfico mostra a…

O turismo é um dos fluxos mais dinâmicos da globalização e um pilar da economia portuguesa: direta e indiretamente, representa cerca de 15 % do PIB. O gráfico mostra a evolução aproximada das receitas das atividades turísticas em Portugal (fonte: Banco de Portugal; valores arredondados):

mil milhões de euros 5 10 15 20 25 18 8 11 22 25 2019 2020 2021 2022 2023
  1. a) Calcula a variação percentual das receitas entre 2019 e 2020 e explica a causa da rutura.
  2. b) Compara os valores de 2022 e 2023 com o de 2019 e descreve a recuperação do setor.
  3. c) Discute as vantagens e as vulnerabilidades de uma economia muito dependente do turismo internacional, tendo em conta que o PIB português caiu $8,3\%$ em 2020.
  4. d) Sugere duas estratégias para reduzir a vulnerabilidade da economia portuguesa a choques externos como o que o gráfico evidencia.
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Os três fluxos e a globalização

Os fluxos de capital, de pessoas e de turistas estão ligados: o IDE cria empregos que atraem imigrantes; os turistas descobrem um país e depois investem ou mudam-se para lá; as remessas dos emigrantes financiam famílias e negócios. Esta interdependência é uma marca da globalização.

Um fator essencial é a globalização financeira: a integração dos mercados de capitais, a livre circulação de capitais, a desregulamentação, as tecnologias de informação (transferências em segundos) e os mercados financeiros que funcionam em rede. Facilita o financiamento, mas também espalha as crises de um país para outros.

Ao avaliar os efeitos, usa sempre os dois lados:

  • Oportunidades: mais emprego, tecnologia, mercados e receitas.

  • Riscos: dependência, volatilidade, pressão sobre recursos e desigualdades.

Em resumo

  • Os fluxos de capital incluem investimentos, crédito e empréstimos; o IDE implica controlo e longo prazo, enquanto o investimento de carteira é volátil.

  • As migrações podem ser internas ou externas; Portugal é país de emigração e, cada vez mais, de imigração.

  • O turismo gera emprego e receitas, mas torna a economia vulnerável a choques externos.

  • Para analisar a evolução, usa a variação absoluta e a taxa de variação, $\frac{V_f - V_i}{V_i}\times 100$.

  • A globalização financeira (liberalização, desregulamentação, tecnologias) liga os três fluxos e propaga também as crises.

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