Empresas transnacionais e deslocalização
Um carro sai da fábrica da AutoEuropa, em Palmela, e segue para clientes de outros países europeus. A fábrica fica em Portugal, mas a empresa que a detém é alemã, e os lucros, as decisões e a tecnologia não ficam todos cá. Será este carro «português»? Quem manda, afinal, nas empresas que produzem em vários países? Vamos responder a esta pergunta ao longo da página.
O que é uma empresa transnacional
Uma empresa transnacional (ETN), também chamada multinacional, é uma empresa que tem a sede num país e filiais (fábricas, escritórios, lojas) noutros países, que controla a partir da sede.
No caso da AutoEuropa, a sede do grupo Volkswagen fica na Alemanha e a filial fica em Palmela.
As ETN têm, em regra, três características:
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Dimensão: são grandes, com muitos trabalhadores e volumes de negócios por vezes superiores ao PIB de pequenos países.
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Âmbito geográfico: produzem e vendem em vários países e continentes.
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Capacidade financeira e tecnológica: têm capital para investir e dispõem de investigação e desenvolvimento (I&D), marcas e tecnologia avançada.
Os países de acolhimento querem as ETN porque trazem investimento direto estrangeiro (IDE), criam emprego, aumentam as exportações, trazem tecnologia e geram receitas fiscais. A AutoEuropa, por exemplo, é um dos maiores exportadores portugueses.
A fábrica da AutoEuropa, em Palmela, pertence ao grupo alemão Volkswagen, emprega milhares de trabalhadores e é um dos maiores exportadores portugueses: a quase…
A fábrica da AutoEuropa, em Palmela, pertence ao grupo alemão Volkswagen, emprega milhares de trabalhadores e é um dos maiores exportadores portugueses: a quase totalidade dos automóveis aí produzidos segue para outros países.
- a) Explica por que razão a Volkswagen é considerada uma empresa transnacional e identifica, no caso descrito, onde se situa a sede e onde se situa a filial.
- b) Indica três características habituais das empresas transnacionais, relativas à sua dimensão, ao seu âmbito geográfico e à sua capacidade financeira e tecnológica.
- c) Explica que interesse tem um país como Portugal em atrair a instalação de filiais de empresas transnacionais.
Deslocalização: por que razão as empresas mudam de país
A deslocalização é a transferência de uma atividade (por exemplo, uma fábrica) de um país para outro, geralmente para reduzir custos ou aceder a novos mercados. Quando a empresa apenas abre uma unidade nova noutro país sem fechar a anterior, fala-se de deslocação.
O motivo mais visível é o custo do trabalho, mas há outros:
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Impostos mais baixos ou incentivos fiscais;
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proximidade dos mercados de consumo (produzir onde se vende);
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matérias-primas e energia mais baratas ou acessíveis;
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legislação laboral e ambiental menos exigente;
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mão de obra qualificada, infraestruturas e estabilidade política.
Uma empresa de calçado de Felgueiras decide encerrar a sua fábrica em Portugal, onde emprega 80 trabalhadoras com a retribuição mínima mensal garantida (RMMG) de…
Uma empresa de calçado de Felgueiras decide encerrar a sua fábrica em Portugal, onde emprega 80 trabalhadoras com a retribuição mínima mensal garantida (RMMG) de $870\ \text{€}$, paga 14 meses por ano, e transferir a produção para um país do Sudeste Asiático, onde o salário médio de uma operária é de $250\ \text{€}$ por mês, em 12 meses por ano.
- a) Calcula o custo salarial anual de uma trabalhadora em cada um dos países.
- b) Determina a poupança salarial anual da empresa, admitindo que mantém os 80 postos de trabalho na nova fábrica.
- c) Identifica três motivos, para além dos salários, que podem levar as empresas a deslocalizar a produção.
- d) Analisa os efeitos desta deslocalização no país de origem e no país de destino, referindo dois efeitos positivos e dois negativos em cada um.
A cadeia global de valor
Hoje, um produto raramente é feito num só país. A desagregação internacional do processo produtivo (também chamada decomposição internacional dos processos produtivos, ou produção geograficamente repartida) consiste em dividir o fabrico em fases, realizadas em países diferentes, consoante onde cada fase fica mais barata ou mais eficiente. O conjunto dessas fases é a cadeia global de valor.
Mas o valor acrescentado (a riqueza criada em cada fase) não se reparte por igual. As fases de conceção, marca e distribuição retêm muito mais valor do que a montagem, que é a que mais emprega mão de obra barata.
Daqui resulta a ideia de transnacionalização da produção: as ETN criam produtos e mercados globais, vendidos com a mesma marca em todo o mundo, e escolhem para cada fase o país mais vantajoso.
A figura mostra a cadeia global de valor de um telemóvel «desenhado na Califórnia», vendido em milhões de unidades em todo o mundo, incluindo em Portugal. A tabela…
A figura mostra a cadeia global de valor de um telemóvel «desenhado na Califórnia», vendido em milhões de unidades em todo o mundo, incluindo em Portugal.
A tabela indica a repartição aproximada do valor acrescentado por cada fase da cadeia:
| Fase | Parte do valor acrescentado |
|---|---|
| Conceção e I&D | 35 % |
| Produção de componentes | 25 % |
| Montagem | 10 % |
| Venda, distribuição e serviços | 30 % |
- a) Explica o que significa a desagregação internacional do processo produtivo, usando a figura como exemplo.
- b) Compara a parte do valor retida pela montagem com a das restantes fases e explica por que razão a montagem se concentra em países de salários baixos.
- c) Explica qual é o papel da empresa transnacional na coordenação desta cadeia e indica quem fica com a maior fatia do valor criado.
Vencedores e vencidos
A deslocalização não é boa nem má em absoluto: tem efeitos diferentes consoante o grupo e o país.
| País de origem | País de destino | |
|---|---|---|
| Ganham | Consumidores (preços mais baixos); empresa e acionistas (mais lucro) | Trabalhadores que arranjam emprego; Estado (impostos, exportações); região (infraestruturas, tecnologia) |
| Perdem | Trabalhadores despedidos; regiões industriais afetadas; Estado (menos receitas, mais subsídios de desemprego) | Trabalhadores com salários baixos e más condições; pequenas empresas locais; ambiente |
A «corrida para o fundo»
Quando vários países competem para atrair ETN, podem baixar salários, relaxar a legislação laboral e as normas ambientais e reduzir impostos. Chama-se corrida para o fundo (race to the bottom): cada país piora as suas condições para ser mais atrativo do que o vizinho, e no fim todos ficam pior.
Para que o investimento estrangeiro beneficie o país de destino, este pode, por exemplo:
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exigir a transferência de tecnologia e a contratação de fornecedores locais;
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investir em educação e formação, para subir na cadeia de valor;
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aplicar e fiscalizar regras laborais e ambientais mínimas, idealmente em acordo com organizações internacionais.
«A deslocalização das empresas transnacionais cria vencedores e vencidos, tanto nos países ricos como nos países pobres.» a) Comenta esta afirmação, identificando os…
«A deslocalização das empresas transnacionais cria vencedores e vencidos, tanto nos países ricos como nos países pobres.»
- a) Comenta esta afirmação, identificando os vencedores e os vencidos da deslocalização no país de origem (trabalhadores, consumidores, Estado, regiões afetadas) e no país de destino.
- b) Explica o que significa a expressão «corrida para o fundo» (race to the bottom) no contexto da concorrência entre países para atrair empresas transnacionais, relacionando-a com os salários, a legislação laboral e as normas ambientais.
- c) Indica duas medidas que os países de destino podem adotar para que a instalação de filiais contribua para o seu desenvolvimento — e não apenas para empregos mal pagos — e justifica cada uma.
Vamos ao início: o carro da AutoEuropa é «português» na produção, mas a decisão, a marca e grande parte do valor pertencem a uma ETN com sede na Alemanha. É isto que significa uma economia integrada em cadeias globais de valor.
Em resumo
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Uma ETN tem sede num país e filiais noutros; é grande, atua em vários países e tem capital e tecnologia.
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A deslocalização transfere a produção para outro país, sobretudo por custos (trabalho, impostos), mas também por mercados, recursos e legislação.
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A cadeia global de valor reparte o processo produtivo por países; conceção e venda retêm mais valor do que a montagem.
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Há vencedores e vencidos em ambos os países; a corrida para o fundo pode agravar condições laborais e ambientais.
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Os países de destino podem exigir transferência de tecnologia, investir em formação e fazer cumprir regras mínimas.