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Pegada ecológica e biocapacidade

Todos os anos, a Global Footprint Network anuncia o «Dia da Sobrecarga da Terra»: a data a partir da qual a humanidade já consumiu mais do que o planeta consegue regenerar num ano inteiro. Como se calcula essa data? E o que acontece nos meses que sobram? Vamos descobrir.

O que mede a pegada ecológica

Imagina que cada pessoa tem uma «conta» na natureza. De um lado está o que consome: alimentos, energia, madeira, transportes. Do outro, o que o território onde vive consegue produzir e regenerar, incluindo a absorção do dióxido de carbono que emite.

A pegada não depende só do número de pessoas, mas também dos padrões de consumo e dos estilos de vida: comer muita carne, mudar de telemóvel todos os anos, comprar roupa que se usa poucas vezes ou usar o carro em todas as deslocações aumentam a área de que precisamos. Por isso, os hábitos culturais de consumo são uma fonte de degradação ambiental.

O hectare global é um hectare com a produtividade média mundial. Serve para comparar territórios diferentes na mesma unidade: um hectare de floresta no Brasil e um de terra agrícola em Portugal ficam expressos numa medida comum.

A diferença entre as duas dá o saldo ecológico:

$$\text{saldo ecológico} = \text{biocapacidade} - \text{pegada ecológica}$$
  • Saldo negativo: défice ecológico. O território consome mais do que regenera e vive à custa de recursos de outros lugares ou do futuro.

  • Saldo positivo: reserva ecológica. O território regenera mais do que consome.

Pratica★☆☆Por começar
a) Explica, com as tuas palavras, o que mede a pegada ecológica e o que é a biocapacidade de um território, referindo a unidade hectare global (hag). b) Distingue défice…
  1. a) Explica, com as tuas palavras, o que mede a pegada ecológica e o que é a biocapacidade de um território, referindo a unidade hectare global (hag).
  2. b) Distingue défice ecológico de reserva ecológica.
  3. c) A pegada ecológica média de um residente em Portugal é de cerca de 4 hag e a biocapacidade do território português é de cerca de 1,3 hag por residente. Calcula o saldo ecológico por residente e classifica-o como défice ou reserva.
  4. d) Indica duas atividades do teu dia a dia que contribuem para aumentar a pegada ecológica e explica porquê.
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Comparar países

Para comparar países, calculamos o saldo de cada um. Um país pode ter pegada alta e ainda assim ter reserva, se a sua biocapacidade for ainda maior.

País Pegada (hag) Biocapacidade (hag) Saldo (hag)
País A 6,0 2,0 $-4{,}0$
País B 1,5 6,0 $+4{,}5$

O país A tem défice; o país B tem reserva. Um país com défice importa biocapacidade (compra alimentos, madeira, energia) ou esgota os seus próprios recursos.

Também se pode fazer a conta ao planeta: se a soma das pegadas de todos for maior do que a biocapacidade total da Terra, a humanidade está em sobreutilização. Divide-se a pegada média pela biocapacidade média por pessoa para saber quantos «planetas» seriam necessários.

Pratica★★☆Por começar
A tabela apresenta valores aproximados da pegada ecológica e da biocapacidade por habitante, em hectares globais (hag), de quatro países. | País | Pegada ecológica (hag)…

A tabela apresenta valores aproximados da pegada ecológica e da biocapacidade por habitante, em hectares globais (hag), de quatro países.

País Pegada ecológica (hag) Biocapacidade (hag)
EUA 8,0 3,5
Portugal 4,0 1,3
Índia 1,2 0,5
Brasil 2,9 8,7
  1. a) Calcula o saldo ecológico por habitante de cada país.
  2. b) Classifica cada país como tendo défice ou reserva ecológica e interpreta o caso do Brasil.
  3. c) A biocapacidade média disponível no planeta é de cerca de 1,6 hag por pessoa. Calcula quantos planetas Terra seriam necessários se toda a Humanidade tivesse a pegada média dos EUA e, depois, a de Portugal.
  4. d) Comenta o que os resultados da alínea anterior revelam sobre a sustentabilidade dos padrões de consumo atuais.
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Poluição e problemas ambientais globais

O crescimento económico moderno aumenta a produção e o consumo, e com eles a poluição da atmosfera, das águas e dos solos. Além disso, a utilização indiscriminada dos recursos faz diminuir a base de recursos: a água potável (aquíferos e rios sobreexplorados ou contaminados), as zonas verdes e ribeirinhas (ocupadas pela urbanização), as espécies vegetais e animais (perda de biodiversidade), os solos produtivos (erosão, desertificação e contaminação) e os recursos minerais (não renováveis, que se esgotam com a extração).

A poluição das águas (descargas industriais, esgotos, adubos e pesticidas) e a poluição dos solos (resíduos, metais pesados) agravam esta perda. Três problemas atmosféricos merecem ainda atenção especial.

Problema Causa principal Consequência
Chuvas ácidas Dióxido de enxofre e óxidos de azoto (indústria, transportes) Acidificação de rios e solos, danos em florestas e monumentos
Buraco na camada de ozono Clorofluorocarbonetos (CFC) Mais radiação ultravioleta à superfície
Intensificação do efeito de estufa CO₂ e metano da queima de combustíveis fósseis, da agricultura e da pecuária Aquecimento global e alterações climáticas

O efeito de estufa é natural e necessário: sem ele a Terra seria demasiado fria. O problema é a sua intensificação pelas emissões humanas.

A degradação ambiental é também um obstáculo ao desenvolvimento: a perda de solos férteis, a falta de água potável ou os fenómenos climáticos extremos reduzem a produção, afetam a saúde e empobrecem sobretudo os países com menos meios.

Pratica★★☆Por começar
a) Associa cada problema ambiental da coluna da esquerda à sua causa principal na coluna da direita: | Problema ambiental | Causa principal |…
  1. a) Associa cada problema ambiental da coluna da esquerda à sua causa principal na coluna da direita:
Problema ambiental Causa principal
1. Chuvas ácidas A. Libertação de clorofluorocarbonetos (CFC)
2. Buraco da camada de ozono B. Emissões de dióxido de carbono e de metano pela queima de combustíveis fósseis
3. Intensificação do efeito de estufa C. Emissões de dióxido de enxofre e de óxidos de azoto pela indústria e pelos transportes
  1. b) Explica por que razão o Protocolo de Montreal (1987), que proibiu progressivamente os CFC, é considerado um caso de sucesso da cooperação internacional no ambiente.
  2. c) Distingue o efeito de estufa natural do seu reforço pela ação humana e relaciona esse reforço com as alterações climáticas.
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Soluções: energia, economia circular e fiscalidade

Energias renováveis

Em anos recentes, Portugal produziu mais de metade da sua eletricidade a partir de fontes renováveis (hídrica, eólica e solar). Vantagens: menos emissões de CO₂ e menor dependência de combustíveis importados. Obstáculo técnico: a produção é intermitente (depende do vento, do sol e da chuva) e a eletricidade é difícil de armazenar em grande escala, o que exige redes inteligentes, baterias ou interligações com outros países.

Economia circular

No modelo linear (extrair, produzir, usar e deitar fora), cada produto acaba no lixo. No modelo circular, os resíduos de um processo tornam-se matéria-prima de outro. Exemplo: as garrafas de vidro depositadas no ecoponto são fundidas e transformadas em garrafas novas; um telemóvel reparado ou recondicionado dispensa a extração de novos minerais.

Comparação entre o modelo linear, que acaba em resíduos, e o modelo circular, em que os materiais voltam à produção Modelo linear Extrair Produzir Usar Termina em resíduos Modelo circular Produzir Usar Reutilizar Os materiais voltam ao ciclo

Fiscalidade verde

Quando uma atividade provoca danos que ninguém paga, existe uma externalidade negativa: o mercado, sozinho, produz poluição a mais. Algo semelhante acontece com os bens comuns (o ar, a água, os mares), que são de uso livre e, por isso, tendem a ser sobreexplorados (a tragédia dos bens comuns), e com a falta de direitos de propriedade bem definidos, que impede que alguém responda pelo dano. Estas limitações ao funcionamento regular do mercado justificam a intervenção do Estado e de organizações supranacionais, como a União Europeia. Um imposto sobre o carbono é um exemplo: faz com que quem emite pague pelo dano que causa. O preço dos combustíveis fósseis sobe, o que incentiva as famílias e as empresas a poupar energia e a escolher alternativas mais limpas. Risco: os mais pobres gastam uma parte maior do rendimento em energia, pelo que o imposto pode ser regressivo; e as empresas podem deslocalizar a produção para países sem imposto, deslocando também a poluição. Por isso se discute a devolução das receitas às famílias mais vulneráveis e a coordenação internacional, como no Acordo de Paris (2015).

Pratica★★★Por começar
Em anos recentes, Portugal tem produzido mais de metade da sua eletricidade a partir de fontes renováveis (hídrica, eólica e solar), e a União Europeia assumiu…

Em anos recentes, Portugal tem produzido mais de metade da sua eletricidade a partir de fontes renováveis (hídrica, eólica e solar), e a União Europeia assumiu compromissos climáticos no âmbito do Acordo de Paris (2015).

  1. a) Apresenta duas vantagens e um obstáculo técnico da aposta portuguesa nas energias renováveis.
  2. b) Explica o princípio da economia circular, contrasta-o com o modelo linear «extrair, produzir, usar e deitar fora» e dá um exemplo concreto de aplicação.
  3. c) Explica como um imposto sobre o carbono (fiscalidade verde) pode contribuir para reduzir as emissões e discute o risco de esse imposto pesar mais nas famílias de rendimentos baixos, propondo uma forma de o compensar.
  4. d) Avalia qual das três soluções — renováveis, economia circular ou fiscalidade verde — deveria ser prioritária para Portugal, justificando com dois critérios à tua escolha.
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Em resumo

  • A pegada ecológica mede a área necessária para sustentar o consumo; a biocapacidade mede o que o território regenera; ambas em hag.

  • Saldo $=$ biocapacidade $-$ pegada: negativo é défice ecológico, positivo é reserva ecológica.

  • As chuvas ácidas, o buraco na camada de ozono e a intensificação do efeito de estufa têm causas distintas.

  • A degradação ambiental trava o desenvolvimento.

  • Soluções: energias renováveis, economia circular e fiscalidade verde, com cooperação internacional (Acordo de Paris).

  • De volta ao início: o «Dia da Sobrecarga» é a data em que a pegada acumulada do ano iguala a biocapacidade anual (do planeta ou de um país); com défice, chega muito antes do fim do ano.

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