O valor acrescentado bruto
Uma padaria vende uma fornada de pão por 750 €. Essa fornada só existe porque um agricultor produziu trigo e um moleiro fez farinha. Se somares o que cada um vendeu, a fornada «vale» mais de 750 €? Neste apontamento vais perceber porquê, e como a Contabilidade Nacional resolve o problema.
O problema da múltipla contagem
Imagina uma cadeia de produção simples, com três empresas:
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o agricultor vende o trigo ao moleiro por 150 €;
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o moleiro vende a farinha ao padeiro por 400 €;
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o padeiro vende o pão aos consumidores por 750 €.
Se somares o valor das vendas de cada empresa, obténs $150 + 400 + 750 = 1\,300\ \text{€}$. Mas os consumidores só pagaram 750 € pelo pão. Os 1 300 € contam várias vezes o trigo e a farinha, que já estão «dentro» do pão. A isto chama-se múltipla contagem.
Há duas formas de evitar este erro:
Na cadeia do pão, os dois métodos dão o mesmo resultado, como vais ver na secção seguinte.
Valor acrescentado bruto de uma empresa
Os consumos intermédios são os bens e serviços que uma empresa compra a outras e que consome ou transforma no processo produtivo durante o ano: matérias-primas, energia, água, serviços externos (transportes, seguros, contabilidade).
Porquê? O que a empresa compra a outras já foi produzido por elas. O que é «novo» é a diferença: o valor que a empresa acrescenta com o trabalho e o capital. É «bruto» porque ainda não se descontou o desgaste do equipamento (consumo de capital fixo, ver a secção seguinte).
Na produção de pão intervêm três empresas: um agricultor, que vende o trigo ao moleiro por $150\ \text{€}$; o moleiro, que vende a farinha ao padeiro por…
Na produção de pão intervêm três empresas: um agricultor, que vende o trigo ao moleiro por $150\ \text{€}$; o moleiro, que vende a farinha ao padeiro por $400\ \text{€}$; e o padeiro, que vende o pão aos consumidores finais por $750\ \text{€}$. Admite que o agricultor não compra bens produzidos por outras empresas. A figura resume a cadeia, com o valor acrescentado de cada etapa por determinar.
- a) Calcula o valor acrescentado bruto (VAB) de cada empresa, sabendo que $\text{VAB} = \text{valor da produção} - \text{consumos intermédios}$.
- b) Determina a soma dos VAB das três empresas e compara-a com o valor do pão vendido aos consumidores finais. O que concluis?
- c) Explica por que razão somar os valores da produção das três empresas ($150 + 400 + 750$ euros) daria uma medida enganadora da riqueza criada.
A empresa DouroTinto, produtora de vinho, apresenta os seguintes dados relativos ao ano passado, em milhares de euros: | Rubrica | Valor (milhares de €) | |---|---| |…
A empresa DouroTinto, produtora de vinho, apresenta os seguintes dados relativos ao ano passado, em milhares de euros:
| Rubrica | Valor (milhares de €) |
|---|---|
| Valor das vendas de vinho | 850 |
| Matérias-primas (uvas, garrafas, rolhas) | 300 |
| Energia e água | 60 |
| Serviços externos (contabilidade, transportes, seguros) | 90 |
| Remunerações dos $10$ trabalhadores | 200 |
- a) Determina o total dos consumos intermédios da empresa.
- b) Calcula o VAB da DouroTinto.
- c) Explica por que razão as remunerações dos trabalhadores não são consumos intermédios.
- d) Calcula o VAB por trabalhador e explica o que mede esse indicador.
Fusão de empresas e o valor da produção
O que acontece se as três empresas da cadeia do pão se fundirem numa só, que produz o trigo, a farinha e o pão?
Depois da fusão já não há vendas intermédias: a empresa única só vende o pão, por 750 €, e não compra bens a outras empresas. Logo $\text{VAB} = 750 - 0 = 750\ \text{€}$.
O valor total da produção desce de 1 300 € para 750 €, mas o VAB total mantém-se em 750 €. Isto mostra que o valor da produção depende da organização das empresas, enquanto o VAB mede a riqueza realmente criada, independentemente de quantas empresas participam na cadeia. É por isso que a Contabilidade Nacional usa o VAB e não as vendas.
Retoma a cadeia trigo → farinha → pão: um agricultor vende o trigo por $150\ \text{€}$, o moleiro vende a farinha por $400\ \text{€}$ e o padeiro vende o pão aos…
Retoma a cadeia trigo → farinha → pão: um agricultor vende o trigo por $150\ \text{€}$, o moleiro vende a farinha por $400\ \text{€}$ e o padeiro vende o pão aos consumidores finais por $750\ \text{€}$ (admitindo que o agricultor não compra bens produzidos por outras empresas). Supõe agora que as três empresas se fundem numa única empresa, a TrigoPão, que produz o trigo, transforma-o em farinha e vende o pão por $750\ \text{€}$.
- a) Calcula o VAB da nova empresa.
- b) Compara a soma dos VAB da economia antes e depois da fusão. O VAB total alterou-se?
- c) E o valor total da produção da economia? Indica o seu valor antes e depois da fusão e explica a diferença.
- d) Conclui por que razão a Contabilidade Nacional prefere somar valores acrescentados e não valores da produção.
Do VAB ao PIB
A economia tem milhares de empresas. O INE agrupa-as em ramos de atividade (agricultura, indústria, construção, serviços…) e soma os VAB de cada ramo. A soma dos VAB de todos os ramos dá o VAB total da economia.
Mas há uma diferença. O VAB mede-se a preços de base, isto é, sem os impostos sobre os produtos (como o IVA) e sem os subsídios aos produtos. O PIB mede-se a preços de mercado, que são os que o comprador paga. Por isso:
Porquê? Quando compras um produto, pagas o preço de base mais o IVA. O Estado cobra o imposto e este faz parte do valor a preços de mercado; os subsídios reduzem o preço pago, por isso subtraem-se.
Bruto e líquido, correntes e constantes
Há ainda duas distinções importantes:
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Bruto vs. líquido: o Produto Líquido obtém-se descontando ao Bruto o consumo de capital fixo (amortizações), isto é, o desgaste do equipamento durante o ano. $\text{Produto líquido} = \text{Produto bruto} - \text{consumo de capital fixo}$.
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Preços correntes vs. constantes: a preços correntes o produto é medido com os preços do próprio ano; a preços constantes usam-se os preços de um ano-base, o que elimina o efeito da inflação e permite comparar a quantidade produzida ao longo do tempo.
O INE (Instituto Nacional de Estatística) publica o VAB por ramos de atividade. A tabela apresenta dados simplificados de uma economia, num certo ano, em milhões de…
O INE (Instituto Nacional de Estatística) publica o VAB por ramos de atividade. A tabela apresenta dados simplificados de uma economia, num certo ano, em milhões de euros.
| Ramo de atividade | VAB (milhões de €) |
|---|---|
| Agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca | 5 000 |
| Indústrias extrativas, transformadoras e energia | 38 000 |
| Construção | 12 000 |
| Comércio, transportes, alojamento, restauração e outros serviços | 195 000 |
No mesmo ano, os impostos sobre os produtos (como o IVA) foram de $34\,000$ milhões de euros e os subsídios à produção de $2\,000$ milhões de euros.
- a) Calcula o VAB total da economia, a preços de base.
- b) Determina o peso, em percentagem, dos serviços no VAB total e comenta o resultado à luz do que sabes sobre a estrutura produtiva portuguesa.
- c) Calcula o PIB a preços de mercado, pela ótica da produção: $\text{PIB} = \sum \text{VAB} + \text{impostos sobre os produtos} - \text{subsídios}$.
De volta ao início: a fornada de pão de 750 € não «vale» mais do que isso. A soma dos valores acrescentados de agricultor, moleiro e padeiro dá exatamente o preço pago pelo consumidor final.
Em resumo
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A múltipla contagem surge quando se somam as vendas de todas as empresas: os bens intermédios são contados mais de uma vez.
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Evita-se com o método dos produtos finais ou o método dos valores acrescentados.
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$\text{VAB} = \text{produção} - \text{consumos intermédios}$; as remunerações não são consumos intermédios.
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A soma dos VAB não depende de as empresas se fundirem, ao contrário do valor da produção.
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$\text{PIB}_{pm} = \sum\text{VAB} + \text{impostos sobre os produtos} - \text{subsídios aos produtos}$.
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Produto líquido = bruto − consumo de capital fixo; preços constantes eliminam o efeito da inflação.