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11.º ano A · Economia A
Contabilidade Nacional · O Produto Interno Bruto

Limitações do PIB

A avó cuida do neto todas as tardes e ninguém lhe paga. Se a família contratar uma babysitter com recibo, o PIB aumenta. O trabalho é o mesmo, a criança é a mesma, mas só num dos casos a economia «regista» alguma coisa. Será o PIB um bom retrato da vida das pessoas? Vamos ver até onde ele chega e onde deixa de chegar.

O que o PIB regista (e o que não regista)

O PIB mede o valor da produção de bens e serviços finais, dentro do território económico, num dado período, tal como é apurada pela Contabilidade Nacional. Para entrar no cálculo, a atividade tem de ser produção e tem de ser observada pelas estatísticas oficiais.

Duas ideias ajudam a decidir:

  • A troca de bens usados entre particulares não é produção nova do ano: o automóvel já tinha sido contado quando foi produzido. Só entra a comissão do stand, porque é um serviço prestado nesse ano.

  • O que é produzido mas não chega às estatísticas fica fora do valor medido.

Tipo O que é Exemplo
Autoconsumo e trabalho doméstico Produção para uso próprio, sem passar pelo mercado Legumes da horta da família; limpar a própria casa
Economia informal (subterrânea) Atividade legal em si, mas escondida para fugir a impostos ou contribuições Reparação paga em dinheiro, sem fatura, para não cobrar IVA
Atividade ilegal O próprio bem ou serviço é proibido Venda de mercadoria contrafeita

Repara que o canalizador sem fatura presta um serviço legal: o que é escondido é o pagamento. Já na mercadoria contrafeita é a própria atividade que é ilegal.

Na prática, os institutos de estatística estimam parte destas atividades para melhorar a medição. Mesmo assim, uma parte continua por captar.

Quadro com atividades que entram no PIB e atividades que ficam de fora Entra no PIB Jantar no restaurante Babysitter com recibo Só a comissão do stand Fica de fora Jantar feito em casa Trabalho gratuito da avó Reparação sem fatura Venda do carro usado

Uma consequência da economia informal: o PIB oficial subestima a produção real, e o Estado perde receita de IVA, IRS e contribuições, o que afeta o financiamento da Segurança Social.

Pratica★☆☆Por começar
Indica se cada uma das seguintes atividades entra no cálculo do PIB e justifica a tua decisão: a) Um jantar num restaurante de Matosinhos. b) O mesmo jantar confecionado…

Indica se cada uma das seguintes atividades entra no cálculo do PIB e justifica a tua decisão:

  1. a) Um jantar num restaurante de Matosinhos.
  2. b) O mesmo jantar confecionado em casa pela família.
  3. c) O trabalho de uma babysitter pago com recibo.
  4. d) O mesmo trabalho feito gratuitamente pela avó.
  5. e) A venda de um automóvel usado entre dois particulares.
  6. f) A comissão cobrada por um stand que intermediou a venda desse automóvel.
Resolver
Pratica★☆☆Por começar
A economia não observada escapa à medição oficial da Contabilidade Nacional. Classifica cada um dos exemplos seguintes como autoconsumo ou trabalho doméstico, economia…

A economia não observada escapa à medição oficial da Contabilidade Nacional. Classifica cada um dos exemplos seguintes como autoconsumo ou trabalho doméstico, economia informal (subterrânea) ou atividade ilegal, e justifica:

  1. a) Uma família que consome os legumes da sua horta.
  2. b) Um canalizador que faz uma reparação e não passa fatura, para não cobrar IVA.
  3. c) Uma pessoa que trata, sem remuneração, da limpeza da própria casa.
  4. d) A venda de mercadoria contrafeita por um vendedor ambulante.
  1. e) Explica duas consequências da economia informal para o país: uma para a medição do PIB e outra para as receitas do Estado (IVA, IRS e TSU).
Resolver

Externalidades: quando o PIB engana

Uma externalidade é um efeito da atividade de um agente sobre terceiros, que não é pago nem compensado pelo mercado. Pode ser negativa (poluição, ruído) ou positiva (um jardim bem cuidado que valoriza as casas vizinhas, a vacinação que protege também quem não se vacina).

O PIB não subtrai o dano das externalidades negativas, porque ninguém «vende» esse dano. E pior: se o Estado ou as empresas gastarem dinheiro a reparar o dano, essa despesa é produção de serviços e soma ao PIB.

Resposta à pergunta do último passo: 215 milhões de euros. O bem-estar, esse, pode até ter baixado, porque o rio ficou pior. Por isso se diz que «a poluição pode aumentar o PIB»: o PIB conta a limpeza como produção, mas não desconta o estrago.

Pratica★★★Por começar
Uma fábrica de pasta de papel instalada junto a um rio português produz, por ano, $200$ milhões de euros de pasta, mas descarrega resíduos que degradam o rio. No ano…

Uma fábrica de pasta de papel instalada junto a um rio português produz, por ano, $200$ milhões de euros de pasta, mas descarrega resíduos que degradam o rio. No ano passado, o Estado gastou $15$ milhões de euros na despoluição do rio, pagos a empresas de limpeza contratadas para o efeito.

  1. a) Explica como a produção da fábrica e a despesa de despoluição afetam o PIB. O dano ambiental causado ao rio é subtraído em algum momento do cálculo?
  2. b) Comenta a afirmação: «a poluição pode aumentar o PIB».
  3. c) Uma frase atribuída a Robert Kennedy afirma que o PIB «mede tudo, exceto aquilo que faz com que a vida valha a pena». À luz deste exercício e das limitações que estudaste, comenta criticamente a frase e indica dois indicadores complementares que os economistas utilizam para avaliar o bem-estar de uma população.
Resolver

PIB, bem-estar e desigualdade

O PIB per capita divide o PIB pela população:

$$\text{PIB per capita}=\frac{\text{PIB}}{\text{população}}$$

Mede a produção média por habitante. É uma média: não diz como o rendimento se reparte.

Para ver a repartição usa-se, por exemplo, o quociente S80/S20 (já conheces do 10.º ano): rendimento dos 20 % mais ricos a dividir pelo rendimento dos 20 % mais pobres. Quanto maior, maior a desigualdade.

O PIB também não capta muitas dimensões do bem-estar: saúde e esperança de vida, educação, tempo livre, qualidade do ambiente, segurança, coesão social. Por isso existem indicadores complementares, como o Índice de Desenvolvimento Humano.

Barras com o mesmo valor médio e distribuições diferentes do rendimento Norte Sul S80/S20 = 4 S80/S20 = 9
Pratica★★☆Por começar
Os países imaginários Norte e Sul têm exatamente o mesmo PIB per capita: $28\,000\ \text{€}$. Mas a distribuição do rendimento é muito diferente: em Norte, os $20\ \%$…

Os países imaginários Norte e Sul têm exatamente o mesmo PIB per capita: $28\,000\ \text{€}$. Mas a distribuição do rendimento é muito diferente: em Norte, os $20\ \%$ mais ricos recebem $4$ vezes mais do que os $20\ \%$ mais pobres (quociente S80/S20 $= 4$); em Sul, esse quociente é $9$.

  1. a) Explica como se calcula o PIB per capita e o que ele mede.
  2. b) Interpreta o quociente S80/S20 de cada país.
  3. c) O facto de o PIB per capita ser igual nos dois países significa que o cidadão típico tem o mesmo nível de vida em ambos? Justifica.
  4. d) Indica outras duas dimensões do bem-estar que o PIB per capita não captura, pensando no tempo de lazer, na saúde ou no ambiente.
Resolver

Em resumo

  • O PIB só mede a produção observada: ficam fora (total ou parcialmente) o autoconsumo, o trabalho doméstico, a economia informal e a atividade ilegal.

  • A troca de bens usados entre particulares não é produção do ano; os serviços de intermediação, sim.

  • O PIB não desconta as externalidades negativas e conta como produção as despesas de reparação.

  • O PIB per capita é uma média: não mostra a desigualdade (S80/S20) nem muitas dimensões do bem-estar.

  • De volta ao início: a avó e a babysitter fazem o mesmo trabalho, mas só o pago e declarado entra no PIB.

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