Comércio, bem-estar e desigualdades
Quase nada do que usas todos os dias foi feito por uma só pessoa. O pão do teu pequeno-almoço, a camisola que vestes e o telemóvel que tens no bolso passaram por muitas mãos e por muitas trocas. Mas se a troca é boa para quem a faz, porque é que há tanta desigualdade? Vamos ver como funciona o comércio e quem fica com o quê.
A troca voluntária gera ganho mútuo
Um mercado é, no fundo, um local (ou uma rede) onde as pessoas trocam bens e serviços. Começamos pela forma mais simples: a troca entre duas pessoas.
O mesmo acontece à escala do mundo. O café, o cacau e a banana do teu pequeno-almoço não crescem em Portugal. Graças ao comércio à distância, tens acesso a bens que seria impossível ou muito caro produzir localmente.
Explica com um exemplo do recreio (troca de cromos, de lanches, de apontamentos) por que razão duas pessoas trocam bens voluntariamente. Que condição tem de se verificar…
Explica com um exemplo do recreio (troca de cromos, de lanches, de apontamentos) por que razão duas pessoas trocam bens voluntariamente. Que condição tem de se verificar para que ambas fiquem a ganhar?
A figura mostra uma troca entre dois habitantes de uma aldeia: a Ana tem laranjas do seu pomar e o Gonçalo coze pão. Trocam $4$ kg de laranjas por $2$ pães. a) Explica…
A figura mostra uma troca entre dois habitantes de uma aldeia: a Ana tem laranjas do seu pomar e o Gonçalo coze pão. Trocam $4$ kg de laranjas por $2$ pães.
- a) Explica por que razão a Ana e o Gonçalo aceitam a troca sem que ninguém os obrigue.
- b) Imagina que o Gonçalo só quer laranjas se lhe derem $6$ kg por pão. O que aconteceria à troca? Que papel desempenha o «preço» acordado?
Observa o teu pequeno-almoço de hoje e o de um dia qualquer: laranjas, pão, cacau, banana, açúcar. Descobre (ou deduz) quais podem ser originários da tua região e quais…
Observa o teu pequeno-almoço de hoje e o de um dia qualquer: laranjas, pão, cacau, banana, açúcar. Descobre (ou deduz) quais podem ser originários da tua região e quais chegam de outros países, e explica o que nos proporciona esse comércio à distância que seria impossível produzir apenas localmente.
Observa as etiquetas de três peças de roupa ou produtos que tenhas por perto e regista onde foram fabricados. Explica o que isso te indica sobre o comércio internacional…
Observa as etiquetas de três peças de roupa ou produtos que tenhas por perto e regista onde foram fabricados. Explica o que isso te indica sobre o comércio internacional e refere dois bens que usas diariamente cuja produção seria impossível na tua região.
Da troca direta à moeda
A troca de um bem por outro chama-se troca direta. Funciona em pequena escala, mas tem dois problemas.
A moeda resolve os dois problemas ao cumprir três funções:
| Função | O que permite | Exemplo |
|---|---|---|
| Meio de pagamento (ou de troca) | Pagar e receber sem precisar de coincidência de necessidades | Pagar o bilhete de autocarro |
| Medida de valor (unidade de conta) | Exprimir o valor de bens diferentes na mesma unidade | Comparar o preço de duas camisolas |
| Reserva de valor | Guardar poder de compra para mais tarde | Guardar $15$ € no mealheiro |
Do ponto de vista histórico, a moeda foi evoluindo (moeda-mercadoria, moeda metálica, moeda papel, moeda escritural). Os pormenores ficam para as páginas sobre a moeda.
Explica o que é a troca direta e que duas dificuldades apresenta (encontrar quem queira exatamente o que tu ofereces, concordar com o valor relativo de cada bem).…
Explica o que é a troca direta e que duas dificuldades apresenta (encontrar quem queira exatamente o que tu ofereces, concordar com o valor relativo de cada bem). Ilustra com uma tentativa de troca de cromos que não tenha corrido bem.
A moeda resolve os problemas da troca direta. Refere as suas três funções — meio de troca, unidade de conta (medir o valor) e reserva de valor (guardar para mais tarde)…
A moeda resolve os problemas da troca direta. Refere as suas três funções — meio de troca, unidade de conta (medir o valor) e reserva de valor (guardar para mais tarde) — e identifica qual é utilizada em cada situação: (a) comparas o preço de duas camisolas com capuz; (b) pagas o autocarro; (c) guardas $15\ \text{€}$ no mealheiro para dezembro.
A tua turma organiza uma feira de trocas: cada aluno traz três objetos para trocar, sem usar dinheiro. Prevê dois problemas que irão surgir (valorações diferentes,…
A tua turma organiza uma feira de trocas: cada aluno traz três objetos para trocar, sem usar dinheiro. Prevê dois problemas que irão surgir (valorações diferentes, dificuldade em encontrar um parceiro de troca direta) e concebe uma solução para cada um (pontos de troca, quadro de ofertas e procuras). O que nos ensina esta atividade sobre a razão pela qual a moeda existe?
Especialização e vantagem comparativa
Quando cada pessoa se dedica ao que faz melhor e depois troca, produz-se mais no conjunto. Chama-se especialização. Na festa de fim de ano da escola, se cada turma tratar de uma tarefa (comida, música, decoração), tudo fica mais bem feito. O preço a pagar: cada turma depende das outras.
Explica o que é a especialização com um exemplo da escola: na festa de fim de ano, cada turma prepara uma tarefa diferente (comida, música, decoração) em vez de cada…
Explica o que é a especialização com um exemplo da escola: na festa de fim de ano, cada turma prepara uma tarefa diferente (comida, música, decoração) em vez de cada turma fazer tudo. O que se ganha e o que se perde com a especialização?
A Marta demora $10$ minutos a fazer uma pulseira e $20$ a fazer um porta-chaves; o Leo demora $20$ minutos por pulseira e $15$ por porta-chaves. Cada um dispõe de $60$…
A Marta demora $10$ minutos a fazer uma pulseira e $20$ a fazer um porta-chaves; o Leo demora $20$ minutos por pulseira e $15$ por porta-chaves. Cada um dispõe de $60$ minutos.
- a) Calcula quantas pulseiras e quantos porta-chaves cada um pode fazer se dedicar todo o tempo a um único produto.
- b) Se se especializarem (cada um dedicando-se apenas ao que faz mais rapidamente) e depois trocarem entre si, explica por que razão produzem mais em conjunto do que se trabalhassem cada um por sua conta.
Numa hora, a Aina pode preparar $6$ sanduíches ou $4$ travessas de fruta; o Tomás pode preparar $3$ sanduíches ou $3$ travessas. a) Calcula o custo de oportunidade de…
Numa hora, a Aina pode preparar $6$ sanduíches ou $4$ travessas de fruta; o Tomás pode preparar $3$ sanduíches ou $3$ travessas.
- a) Calcula o custo de oportunidade de cada um por produto (quantas travessas custa uma sanduíche à Aina, e vice-versa).
- b) Determina quem tem vantagem comparativa em cada produto e explica por que razão, embora a Aina seja mais eficiente em ambos, convém aos dois especializarem-se e realizarem trocas.
O excedente da troca
Na feira do bairro, a Mei vende compota caseira a $4\ \text{€}$ o frasco. Um cliente tê-la-ia comprado mesmo que custasse $6\ \text{€}$, e a Mei tê-la-ia vendido mesmo…
Na feira do bairro, a Mei vende compota caseira a $4\ \text{€}$ o frasco. Um cliente tê-la-ia comprado mesmo que custasse $6\ \text{€}$, e a Mei tê-la-ia vendido mesmo que recebesse apenas $3\ \text{€}$. Explica o que cada um ganha com esta transação, como se designa esse ganho e o que aconteceria se o preço subisse para $5,50\ \text{€}$.
A frutaria do bairro cobra $2\ \text{€}$ por um quilo de tomates. A comerciante teria ficado satisfeita por vendê-los a $1,50\ \text{€}$ e um cliente estaria disposto a…
A frutaria do bairro cobra $2\ \text{€}$ por um quilo de tomates. A comerciante teria ficado satisfeita por vendê-los a $1,50\ \text{€}$ e um cliente estaria disposto a pagar até $2,80\ \text{€}$.
- a) Calcula o excedente do produtor e o do consumidor nessa transação e explica o que cada um mede.
- b) Explica o que acontece ao excedente total se a autarquia fixar a venda do quilo em $1\ \text{€}$ e a comerciante decidir encomendar menos tomates.
Comércio e desigualdades
Se a troca voluntária beneficia as duas partes, porque há tantas desigualdades? Porque o ganho existe, mas a forma como se reparte é outra questão.
Algumas causas habituais da desigualdade de rendimentos:
-
diferenças de qualificação e de escolaridade;
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diferenças de experiência profissional e de produtividade;
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diferenças de setor e de tipo de emprego (estável ou sazonal, mais ou menos bem pago);
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diferenças de património de partida (heranças, redes de contactos);
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diferenças de poder de negociação nas trocas.
As consequências são concretas: quem tem menos rendimento tem menos capacidade para investir em estudos, em saúde ou num negócio, e isso perpetua a desigualdade de geração em geração. Por isso, o Estado intervém na redistribuição dos rendimentos: cobra impostos diretos e contribuições sociais e paga transferências (como o abono de família ou o subsídio de desemprego) e serviços públicos (como o SNS e a escola pública). Os indicadores para medir a desigualdade (índice de Gini, curva de Lorenz, limiar de pobreza) estudam-se na página sobre pobreza e distribuição dos rendimentos.
Explica por palavras tuas o que é a desigualdade e distingue desigualdade de rendimento (o que se ganha) de desigualdade de riqueza ou património (o que se tem…
Explica por palavras tuas o que é a desigualdade e distingue desigualdade de rendimento (o que se ganha) de desigualdade de riqueza ou património (o que se tem acumulado). Dá um exemplo de cada uma recorrendo a duas famílias fictícias do mesmo bairro.
No bairro do João vivem três famílias com rendimentos muito diferentes: um casal de médicos, uma família com dois salários de supermercado e uma avó com uma pensão…
No bairro do João vivem três famílias com rendimentos muito diferentes: um casal de médicos, uma família com dois salários de supermercado e uma avó com uma pensão baixa. Explica o que é a desigualdade económica, indica duas causas que a originam e uma consequência que pode ter nos projetos que cada família tem capacidade de assumir.
Uma vila tem dois grandes polos de emprego: a exploração agrícola biológica, que paga salários baixos mas estáveis, e as obras de construção civil, que pagam mais mas…
Uma vila tem dois grandes polos de emprego: a exploração agrícola biológica, que paga salários baixos mas estáveis, e as obras de construção civil, que pagam mais mas dependem das épocas do ano. Explica como esta diferença de oportunidades gera desigualdade de rendimento entre munícipes com a mesma idade e habilitações, e propõe duas medidas locais que a possam atenuar sem recorrer a proibições.
Num debate económico, um comentador afirma: «Se duas pessoas ou dois países comerciam de forma voluntária, é impossível que a desigualdade aumente, uma vez que ambos…
Num debate económico, um comentador afirma: «Se duas pessoas ou dois países comerciam de forma voluntária, é impossível que a desigualdade aumente, uma vez que ambos melhoram em relação à sua situação inicial; por isso, o comércio é sempre justo e beneficia todos por igual».
- a) Refuta a afirmação demonstrando com um exemplo concreto como uma troca em que ambas as partes obtêm ganhos pode, ao mesmo tempo, disparar a desigualdade económica entre elas. Na tua resposta, analisa a repartição do excedente e a assimetria no poder de negociação.
- b) Prevê que consequências económicas sofrerá um grupo ou uma região que não disponha de recursos produtivos, tecnologia ou qualificações para participar nas trocas comerciais globais, e justifica por que razão o comércio livre pode agravar a sua situação de exclusão.
De volta ao início: a troca voluntária gera ganho para quem troca, mas a repartição desse ganho, e as oportunidades de partida de cada um, explicam grande parte das desigualdades que observamos.