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Necessidades e consumo · A estrutura do consumo das famílias

Coeficientes orçamentais e a lei de Engel

A Beatriz, de Évora, reparou que em casa se gasta quase sempre o mesmo em comida, mas que em dezembro, com o subsídio de Natal, a conversa à mesa é outra: «Já não gastamos tanto da nossa conta em comida!» Será que gastar o mesmo em alimentação pode pesar menos no orçamento? Para responder, precisamos de uma ferramenta que compare o peso de cada despesa.

O que é um coeficiente orçamental

Uma família divide o seu consumo por várias rúbricas: alimentação e bebidas, habitação, transportes, saúde, lazer, vestuário, etc. Dizer que se gastam $500\ \text{€}$ em comida não diz muito: é muito ou pouco? Depende do total. Por isso comparamos cada despesa com a despesa total de consumo.

A fórmula é uma simples regra de três: quanto da despesa total (100 %) corresponde a esta rúbrica? Por isso, a soma dos coeficientes de todas as rúbricas é sempre $100\ \%$. Este facto serve para verificar as contas.

Barra que representa a despesa total de uma família dividida em alimentação (25 %) e restantes despesas (75 %) Alimentação Restantes despesas 500 € (25 %) 1 500 € (75 %) Despesa total de consumo: 2 000 €
Pratica★☆☆Por começar
A família da Beatriz, de Évora, gasta $2\,000\ \text{€}$ por mês em despesas de consumo, dos quais $500\ \text{€}$ em alimentação e bebidas. a) Explica o que é um…

A família da Beatriz, de Évora, gasta $2\,000\ \text{€}$ por mês em despesas de consumo, dos quais $500\ \text{€}$ em alimentação e bebidas.

  1. a) Explica o que é um coeficiente orçamental e escreve a fórmula, em percentagem, que permite calculá-lo.
  1. b) Calcula o coeficiente orçamental da alimentação desta família.
  1. c) No mês de dezembro, graças ao subsídio de Natal, as despesas de consumo da família subiram para $2\,500\ \text{€}$, mantendo-se o gasto em alimentação. Determina o novo coeficiente orçamental da alimentação e comenta a variação observada.
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Calcular os coeficientes de uma tabela

Em geral, os dados aparecem numa tabela com várias rúbricas. O procedimento tem sempre dois passos: somar para obter a despesa total e dividir cada rúbrica por esse total.

Pratica★☆☆Por começar
A tabela seguinte apresenta as despesas mensais de consumo da família Silva, de Braga: | Rúbrica de despesa | Valor mensal | |---|---| | Alimentação e bebidas | 600 € |…

A tabela seguinte apresenta as despesas mensais de consumo da família Silva, de Braga:

Rúbrica de despesa Valor mensal
Alimentação e bebidas 600 €
Habitação, água, eletricidade e gás 780 €
Transportes 360 €
Saúde 120 €
Lazer, recreação e cultura 240 €
Vestuário e calçado 120 €
Restaurantes e hotéis 180 €
  1. a) Determina o total das despesas de consumo da família Silva.
  1. b) Calcula o coeficiente orçamental de cada rúbrica, com uma casa decimal, e confirma que a soma de todos os coeficientes é $100\ \%$.
  1. c) Indica a rúbrica com maior peso no orçamento desta família e comenta o resultado numa frase.
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Comparar famílias: a lei de Engel

Ernst Engel, um estatístico do século XIX, comparou orçamentos de famílias com rendimentos diferentes e notou uma regularidade: as famílias pobres gastam em comida uma parte muito maior do orçamento do que as ricas.

A razão é intuitiva: a alimentação é uma necessidade primária e tem um limite (ninguém come dez vezes mais por ter dez vezes mais rendimento). Quando o rendimento sobe, o que sobra vai sobretudo para lazer, cultura, viagens ou poupança.

Repara que a lei fala do coeficiente (percentagem), não do valor em euros: a família mais rica até gasta mais euros em comida, mas essa despesa pesa menos no seu orçamento.

Gráfico em que o coeficiente orçamental da alimentação desce à medida que o rendimento aumenta Rendimento da família Coeficiente da alimentação (%) Lei de Engel
Pratica★★☆Por começar
O quadro seguinte apresenta as despesas mensais de duas famílias portuguesas: a família Pereira, da Guarda, com um rendimento mensal baixo, e a família Matos, de…

O quadro seguinte apresenta as despesas mensais de duas famílias portuguesas: a família Pereira, da Guarda, com um rendimento mensal baixo, e a família Matos, de Cascais, com um rendimento mensal elevado.

Rúbrica de despesa Família Pereira Família Matos
Alimentação e bebidas 420 € 800 €
Habitação e despesas da casa 480 € 1 400 €
Transportes 120 € 480 €
Lazer, recreação e cultura 60 € 560 €
Saúde 60 € 320 €
Outras despesas 60 € 440 €
  1. a) Determina o total das despesas de consumo de cada família.
  1. b) Calcula, para cada família, o coeficiente orçamental da alimentação e o do lazer.
  1. c) Compara os valores obtidos: em que família a alimentação tem maior peso? E o lazer?
  1. d) Que relação descobres entre o nível de rendimento das famílias e a estrutura do seu consumo? Escreve-a numa frase.
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Pratica★★★Por começar
A tabela seguinte apresenta as despesas mensais de consumo de quatro famílias portuguesas, ordenadas da que tem menor rendimento (família A) para a de maior rendimento…

A tabela seguinte apresenta as despesas mensais de consumo de quatro famílias portuguesas, ordenadas da que tem menor rendimento (família A) para a de maior rendimento (família D):

Família Despesas de consumo mensais Despesa em alimentação e bebidas
A 1 000 € 380 €
B 1 600 € 480 €
C 2 500 € 625 €
D 4 000 € 800 €
  1. a) Calcula o coeficiente orçamental da alimentação de cada família.
  1. b) A lei de Engel afirma que, à medida que o rendimento das famílias aumenta, a percentagem do orçamento dedicada à alimentação diminui. Os dados da tabela confirmam essa lei? Justifica com os cálculos da alínea anterior.
  1. c) A figura mostra duas curvas que relacionam o rendimento mensal das famílias com dois coeficientes orçamentais diferentes. Indica, justificando, qual das curvas corresponde à alimentação e qual corresponde ao lazer.
rendimento mensal (€) coeficiente orçamental (%) 1 000 2 000 3 000 4 000 10 20 30 40 curva A curva B
  1. d) O rendimento da família D aumentou e as suas despesas de consumo passaram a ser $5\,000\ \text{€}$ por mês. Prevê, à luz da lei de Engel, se o coeficiente orçamental da alimentação ficará acima ou abaixo do valor calculado na alínea a). Isso significa que a família vai gastar menos euros em alimentação do que antes? Explica.
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Usar médias nacionais e a utilização do rendimento

Os coeficientes também servem para estimar despesas. O Inquérito às Despesas das Famílias (INE) fornece a estrutura média do consumo em Portugal. Se conheces a despesa total e o coeficiente médio, a rúbrica obtém-se ao contrário:

$$\text{despesa na rúbrica} = \frac{\text{coeficiente}}{100}\cdot \text{despesa total}$$

Podes ainda calcular percentagens do rendimento disponível, e não só da despesa de consumo. Aí entra também a poupança: o rendimento divide-se em consumo e poupança, e as percentagens somam $100\ \%$ do rendimento.

Pratica★★☆Por começar
Segundo o Inquérito às Despesas das Famílias do INE, as famílias residentes em Portugal dedicam, em média, cerca de um terço das suas despesas de consumo à habitação e…

Segundo o Inquérito às Despesas das Famílias do INE, as famílias residentes em Portugal dedicam, em média, cerca de um terço das suas despesas de consumo à habitação e às despesas da casa (água, eletricidade, gás), cerca de $18\ \%$ à alimentação e bebidas e cerca de $12\ \%$ aos transportes.

  1. a) A família Antunes, de Coimbra, gasta $2\,500\ \text{€}$ por mês em consumo. Estima quanto gastaria em cada uma destas três rubricas se a sua estrutura de consumo fosse igual à média nacional.
  1. b) Na realidade, a família Antunes gasta $900\ \text{€}$ por mês com a habitação. Calcula o seu coeficiente orçamental efetivo da habitação e compara-o com a média nacional.
  1. c) Explica duas razões que podem fazer com que os coeficientes orçamentais de uma família se afastem da média do país (rendimento, dimensão do agregado familiar, região onde vive, hábitos de consumo).
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Pratica★★★Por começar
A tabela seguinte, incompleta, resume a utilização do rendimento mensal da família Costa, do Funchal, cujo rendimento disponível é de $3\,000\ \text{€}$: | Utilização do…

A tabela seguinte, incompleta, resume a utilização do rendimento mensal da família Costa, do Funchal, cujo rendimento disponível é de $3\,000\ \text{€}$:

Utilização do rendimento Valor mensal Percentagem do rendimento
Alimentação e bebidas 600 € 20 %
Habitação e despesas da casa ? 30 %
Transportes 360 € ?
Lazer, recreação e cultura ? 10 %
Poupança 450 € ?
  1. a) Completa as quatro células em falta da tabela, apresentando os cálculos que efetuares.
  1. b) Determina que percentagem do rendimento a família dedica, no total, às cinco utilizações da tabela, e calcula quanto lhe resta, em euros, para as restantes despesas.
  1. c) A família quer aumentar a poupança para $20\ \%$ do rendimento sem mexer na habitação nem na alimentação. Indica duas estratégias possíveis para o conseguir e discute, com números, qual te parece mais realista.
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Outros fatores que influenciam as escolhas

O rendimento não é o único fator que muda a estrutura do consumo. Há outros:

  • Preço: se o preço de um bem sobe, o seu peso no orçamento pode aumentar, ou a família pode comprar menos dele.

  • Inovação tecnológica: aparecem novos bens (telemóveis, plataformas de streaming) que ganham espaço no orçamento.

  • Moda e publicidade: influenciam o que desejamos comprar e quanto gastamos.

  • Dimensão e composição do agregado familiar: uma família com crianças gasta mais em alimentação, educação e saúde; um casal de reformados gasta mais em saúde; uma pessoa só tem despesas fixas de habitação repartidas por menos pessoas.

Em resumo

  • Coeficiente orçamental $=\dfrac{\text{despesa na rúbrica}}{\text{despesa total de consumo}}\cdot 100$; a soma de todos é $100\ \%$.

  • Mede o peso de cada rúbrica, não o seu valor em euros.

  • Lei de Engel: quando o rendimento aumenta, o coeficiente da alimentação diminui.

  • Com um coeficiente e a despesa total, estima-se a despesa: $\frac{\text{coeficiente}}{100}\cdot\text{total}$.

  • Preço, inovação, moda, publicidade e a composição do agregado também influenciam as escolhas.

  • De volta ao início: gastar o mesmo em comida pode pesar menos no orçamento quando a despesa total cresce, como no subsídio de Natal da Beatriz.

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