Consumismo e consumerismo
A Matilde viu num vídeo de uma «influencer» umas sapatilhas novas e comprou-as nessa mesma noite, pelo telemóvel. Duas semanas depois, já só pensava no modelo seguinte. Porque é que isto acontece tantas vezes? E o que podemos fazer, como consumidores, para não sermos apenas levados na corrente?
A sociedade de consumo
Chama-se sociedade de consumo a uma sociedade em que a produção em massa, a publicidade e o crédito tornam o consumo de bens e serviços muito acessível e muito valorizado. Comprar deixa de servir só para satisfazer necessidades: passa também a dar estatuto, pertença a um grupo e identidade.
Nesta sociedade, as pessoas consomem muito mais do que o necessário. É aqui que surgem dois conceitos que parecem semelhantes, mas têm sentidos opostos:
O ciclo do consumismo e o papel da publicidade
O consumismo alimenta-se a si próprio num ciclo. Observa a figura.
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A publicidade (televisão, redes sociais, «influencers») e a moda criam um desejo.
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O consumidor compra, muitas vezes por impulso.
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A satisfação é breve.
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Surge a insatisfação: o que se tem já não chega.
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Nasce um novo desejo, e o ciclo recomeça.
A publicidade tem aqui um papel central: informa, mas também cria necessidades associando o produto a felicidade, sucesso ou pertença a um grupo. O crédito fácil (cartões, pagamento em prestações) empurra o ciclo ainda mais depressa.
A figura representa o chamado ciclo do consumismo, com uma etapa tapada. a) Que etapa está tapada na figura? Justifica a tua resposta. b) Explica, com as tuas palavras,…
A figura representa o chamado ciclo do consumismo, com uma etapa tapada.
- a) Que etapa está tapada na figura? Justifica a tua resposta.
- b) Explica, com as tuas palavras, como funciona este ciclo e que papel desempenha nele a publicidade.
- c) Dá um exemplo, da tua experiência ou da atualidade, de uma compra feita por impulso na sequência de publicidade (televisão, redes sociais, «influencers») e explica o que aconteceu depois.
Obsolescência: comprar antes de ser preciso
Um dos mecanismos que mantém o ciclo a rodar é a obsolescência: o bem torna-se «velho» antes do tempo.
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Obsolescência programada: o produto é concebido para durar pouco tempo, ou deixa de funcionar bem por decisão do fabricante (por exemplo, atualizações que o tornam lento, ou baterias que não se podem substituir).
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Obsolescência psicológica (ou simbólica): o produto continua a funcionar, mas a moda e a publicidade convencem-nos de que está «ultrapassado».
Uma tem causa técnica; a outra tem causa na perceção do consumidor. Ambas levam a trocar de bem mais cedo e a produzir mais resíduos, em especial eletrónicos.
Lê o texto seguinte: «Uma grande marca de telemóveis lança um novo modelo todos os anos. Muitos clientes trocam de aparelho muito antes de o antigo avariar, convencidos…
Lê o texto seguinte:
«Uma grande marca de telemóveis lança um novo modelo todos os anos. Muitos clientes trocam de aparelho muito antes de o antigo avariar, convencidos pela publicidade e pela moda. Além disso, passados alguns anos, os modelos antigos deixam de receber atualizações do sistema e tornam-se lentos, empurrando os utilizadores para uma nova compra. Estima-se que cada europeu produza, em média, cerca de $20\ \text{kg}$ de resíduos eletrónicos por ano.»
- a) Explica o que é a obsolescência programada e distingue-a da chamada obsolescência psicológica (ou simbólica).
- b) Identifica no texto um exemplo de cada uma dessas duas formas de obsolescência.
- c) Indica duas consequências económicas e ambientais deste modelo de consumo, para os consumidores e para o planeta.
- d) A União Europeia tem vindo a aprovar regras como o carregador comum USB-C e o «direito a reparar». Explica de que forma medidas deste tipo contrariam a lógica descrita no texto.
Consumerismo: o consumidor com direitos
Perante o consumismo e as práticas abusivas, nasceu o consumerismo. Em Portugal, algumas formas de o exercer são:
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Associações de defesa do consumidor, como a DECO PROTESTE, que informam, testam produtos e denunciam publicidade enganosa;
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Exigir a fatura em cada compra, que prova a aquisição e garante direitos de garantia;
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Reclamar no Livro de Reclamações (também disponível online);
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Comparar preços e ler as condições antes de comprar.
Em vez de se limitar a comprar, o consumidor torna-se informado, crítico e ativo.
| Situação | Consumismo ou consumerismo? |
|---|---|
| Comprar roupa nos saldos que nunca se usa | Consumismo |
| Denunciar uma publicidade enganosa | Consumerismo |
| Pedir fatura e reclamar de um mau serviço | Consumerismo |
| Comprar a mochila nova só por causa da moda | Consumismo |
a) Explica a diferença entre consumismo e consumerismo. b) Classifica cada uma das situações seguintes como exemplo de consumismo ou de consumerismo, justificando cada…
- a) Explica a diferença entre consumismo e consumerismo.
- b) Classifica cada uma das situações seguintes como exemplo de consumismo ou de consumerismo, justificando cada escolha:
(i) comprar a terceira mochila da mesma marca num ano, apenas porque está na moda;
(ii) uma associação de defesa dos consumidores, como a DECO, denunciar publicidade enganosa;
(iii) acumular roupa comprada nos saldos que nunca chega a ser usada;
(iv) um cliente exigir a fatura e reclamar no Livro de Reclamações depois de um mau serviço.
- c) «Ter mais coisas torna-nos mais felizes.» Comenta criticamente esta frase, relacionando o consumo com o bem-estar: os estudos sobre a felicidade mostram que, a partir de certo nível de rendimento, consumir mais já não aumenta o bem-estar. Que outros fatores passam a contar?
Em resumo
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Sociedade de consumo: o consumo é massivo e dá estatuto, impulsionado por publicidade, moda e crédito.
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Consumismo: comprar em excesso e por impulso o que não é preciso.
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Ciclo do consumismo: publicidade → desejo → compra → satisfação breve → insatisfação → novo desejo.
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Obsolescência: programada (técnica) e psicológica (moda e perceção).
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Consumerismo: movimento de defesa do consumidor (DECO PROTESTE, fatura, Livro de Reclamações).
Voltando à Matilde: o desejo das sapatilhas foi criado pela publicidade e durou pouco, tal como prevê o ciclo. Um consumidor atento pergunta-se «preciso mesmo disto?» e conhece os seus direitos.