Produto de solubilidade
Numa aula laboratorial, a Madalena deita uma colher de cloreto de prata em água e agita. Quase nada se dissolve, mas o que se dissolve nunca chega a zero. Será que existe um limite exato? Como se mede e como se compara «quão pouco solúvel» é cada sal?
Equilíbrio de solubilidade
Quando um sal pouco solúvel está em contacto com a água, os iões da superfície do sólido passam para a solução. Ao mesmo tempo, iões da solução voltam a depositar-se no sólido. Ao fim de algum tempo, as duas velocidades igualam-se: a solução está saturada e há um equilíbrio dinâmico (as massas e concentrações deixam de variar, mas os processos continuam).
Para um sal genérico $\mathrm{A_aB_b}$ escreve-se:
$$\mathrm{A_aB_b(s) \rightleftharpoons a\,A^{n+}(aq) + b\,B^{m-}(aq)}$$Exemplos:
-
$\mathrm{AgCl(s) \rightleftharpoons Ag^+(aq) + Cl^-(aq)}$
-
$\mathrm{PbI_2(s) \rightleftharpoons Pb^{2+}(aq) + 2\,I^-(aq)}$
-
$\mathrm{Ca_3(PO_4)_2(s) \rightleftharpoons 3\,Ca^{2+}(aq) + 2\,PO_4^{3-}(aq)}$
Os coeficientes são os índices da fórmula do sal. Repara que, no $\mathrm{Ca_3(PO_4)_2}$, cada unidade de sal dá $3 + 2 = 5$ iões.
Numa aula de Física e Química A, a turma da Madalena estudou três sais pouco solúveis: o cloreto de prata, $\mathrm{AgCl}$, o iodeto de chumbo(II), $\mathrm{PbI_2}$, e o…
Numa aula de Física e Química A, a turma da Madalena estudou três sais pouco solúveis: o cloreto de prata, $\mathrm{AgCl}$, o iodeto de chumbo(II), $\mathrm{PbI_2}$, e o fosfato de cálcio, $\mathrm{Ca_3(PO_4)_2}$.
- a) Escreve as equações químicas que traduzem os equilíbrios de solubilidade de cada um dos três sais em água.
- b) Escreve a expressão do produto de solubilidade, $K_{ps}$, de cada sal, em função das concentrações de equilíbrio dos iões.
- c) Indica, para cada equilíbrio, o número total de iões formados por cada unidade de sal que se dissolve.
O produto de solubilidade, Kps
Como qualquer equilíbrio, este tem uma constante. O sal sólido puro não entra na expressão (a sua «concentração» não varia), pelo que a constante é só o produto das concentrações dos iões, cada uma elevada ao seu coeficiente:
Exemplos:
-
$K_{ps}(\mathrm{AgCl}) = [\mathrm{Ag^+}][\mathrm{Cl^-}]$
-
$K_{ps}(\mathrm{PbI_2}) = [\mathrm{Pb^{2+}}][\mathrm{I^-}]^2$
-
$K_{ps}(\mathrm{Ca_3(PO_4)_2}) = [\mathrm{Ca^{2+}}]^3[\mathrm{PO_4^{3-}}]^2$
O porquê da forma: é a mesma regra da constante de equilíbrio, $K_c$, em que o reagente é um sólido puro e, por isso, fica de fora.
Solubilidade molar e Kps
A solubilidade é a quantidade máxima de sal que se dissolve numa dada quantidade de solvente, a uma dada temperatura. A solubilidade molar, $s$, é a quantidade de matéria de sal dissolvida por $\text{dm}^3$ de solução saturada (mol/dm³). Em g/dm³, multiplica-se por $M$: $s_{\text{mássica}} = s\times M$.
Se se dissolve $s$ mol de sal por dm³, as concentrações dos iões ficam multiplicadas pelos coeficientes:
| Tipo de sal | $[\text{catião}]$ | $[\text{anião}]$ | $K_{ps}$ |
|---|---|---|---|
| $\mathrm{AB}$ (ex.: AgCl, BaSO₄) | $s$ | $s$ | $s^2$ |
| $\mathrm{A_2B}$ ou $\mathrm{AB_2}$ (ex.: Ag₂CrO₄, PbI₂) | $2s$ ou $s$ | $s$ ou $2s$ | $4s^3$ |
Para o cromato de prata: $[\mathrm{Ag^+}] = 2s$, $[\mathrm{CrO_4^{2-}}] = s$, logo
$$K_{ps} = (2s)^2\cdot s = 4s^3$$O cromato de prata, $\mathrm{Ag_2CrO_4}$, é um sal vermelho-tijolo, pouco solúvel, usado no laboratório como indicador em titulações de precipitação. a) Escreve a…
O cromato de prata, $\mathrm{Ag_2CrO_4}$, é um sal vermelho-tijolo, pouco solúvel, usado no laboratório como indicador em titulações de precipitação.
- a) Escreve a equação química do equilíbrio de solubilidade do cromato de prata em água.
- b) Sendo $s$ a solubilidade molar do sal (a quantidade de matéria de sal que se dissolve por $\text{dm}^3$ de solução), exprime as concentrações de equilíbrio $[\mathrm{Ag^+}]$ e $[\mathrm{CrO_4^{2-}}]$ em função de $s$.
- c) Exprime o produto de solubilidade do cromato de prata em função da solubilidade molar, $s$.
A figura representa um copo com uma solução aquosa saturada de cloreto de prata em contacto com o sal sólido, a 25 °C: estabelece-se um equilíbrio dinâmico entre a…
A figura representa um copo com uma solução aquosa saturada de cloreto de prata em contacto com o sal sólido, a 25 °C: estabelece-se um equilíbrio dinâmico entre a dissolução e a precipitação.
O produto de solubilidade do cloreto de prata a 25 °C é $K_{ps}(\mathrm{AgCl}) = 1,8\cdot10^{-10}$.
- a) Escreve a equação do equilíbrio de solubilidade e a expressão de $K_{ps}$ em função da solubilidade molar, $s$.
- b) Determina a solubilidade molar do cloreto de prata em água pura, a 25 °C.
- c) Expressa essa solubilidade em $\text{g/dm}^3$, sabendo que $M(\mathrm{AgCl}) = 143,3\ \text{g/mol}$, e comenta a classificação do cloreto de prata como sal «pouco solúvel».
Nas radiografias ao aparelho digestivo, os doentes bebem uma suspensão de sulfato de bário, $\mathrm{BaSO_4}$, que torna os órgãos visíveis nas imagens. A 25 °C,…
Nas radiografias ao aparelho digestivo, os doentes bebem uma suspensão de sulfato de bário, $\mathrm{BaSO_4}$, que torna os órgãos visíveis nas imagens. A 25 °C, medem-se cerca de $2,4\ \text{mg}$ de sulfato de bário dissolvidos por $\text{dm}^3$ de solução saturada. A massa molar do sal é $M(\mathrm{BaSO_4}) = 233,4\ \text{g/mol}$.
- a) Converte a solubilidade do sulfato de bário para $\text{mol/dm}^3$.
- b) Escreve a equação do equilíbrio de solubilidade e a respetiva expressão de $K_{ps}$.
- c) Determina o produto de solubilidade do sulfato de bário a 25 °C.
- d) O ião $\mathrm{Ba^{2+}}$ é tóxico para o ser humano. Explica, com base nos valores obtidos, por que razão a suspensão de sulfato de bário pode ser ingerida sem perigo nos exames radiológicos.
Comparar solubilidades
Será que o sal com maior $K_{ps}$ é sempre o mais solúvel? Compara dois sais a 25 °C:
| Sal | $K_{ps}$ | Relação | $s$ (mol/dm³) |
|---|---|---|---|
| $\mathrm{AgCl}$ | $1{,}8\cdot10^{-10}$ | $s=\sqrt{K_{ps}}$ | $1{,}3\cdot10^{-5}$ |
| $\mathrm{Ag_2CrO_4}$ | $1{,}1\cdot10^{-12}$ | $s=\sqrt[3]{K_{ps}/4}$ | $6{,}5\cdot10^{-5}$ |
O $\mathrm{AgCl}$ tem maior $K_{ps}$, mas o $\mathrm{Ag_2CrO_4}$ é mais solúvel. A razão é que as expressões de $K_{ps}$ são diferentes: num caso $K_{ps}=s^2$, no outro $K_{ps}=4s^3$.
Num teste, o Rui escreveu: «Quanto maior o produto de solubilidade de um sal, maior é a sua solubilidade em água.» A professora pediu à turma que analisasse a afirmação…
Num teste, o Rui escreveu: «Quanto maior o produto de solubilidade de um sal, maior é a sua solubilidade em água.» A professora pediu à turma que analisasse a afirmação com dois sais de prata, a 25 °C:
| Sal | Fórmula | $K_{ps}$ (25 °C) |
|---|---|---|
| Cloreto de prata | $\mathrm{AgCl}$ | $1,8\cdot10^{-10}$ |
| Cromato de prata | $\mathrm{Ag_2CrO_4}$ | $1,1\cdot10^{-12}$ |
- a) Calcula a solubilidade molar de cada um dos dois sais em água pura, a 25 °C.
- b) Compara os valores obtidos e avalia criticamente a afirmação do Rui.
- c) Indica em que condições é possível comparar diretamente os valores de $K_{ps}$ de dois sais para decidir qual é o mais solúvel, e aplica esse critério ao cloreto de prata e ao brometo de prata, $\mathrm{AgBr}$ ($K_{ps} = 5,4\cdot10^{-13}$).
De volta ao início: a solução da Madalena para de dissolver quando atinge o equilíbrio, e o limite é dado por $K_{ps}$: para o AgCl, só cerca de $1{,}3\cdot10^{-5}\ \text{mol/dm}^3$.
Em resumo
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Um sal pouco solúvel em água estabelece um equilíbrio dinâmico com os seus iões numa solução saturada.
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$K_{ps}$ é o produto das concentrações de equilíbrio dos iões, cada uma elevada ao seu coeficiente; o sólido não entra.
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$K_{ps}$ só depende da temperatura.
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Com solubilidade molar $s$: AB → $K_{ps}=s^2$; $\mathrm{A_2B}$ ou $\mathrm{AB_2}$ → $K_{ps}=4s^3$.
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$s$ em g/dm³ = $s\times M$.
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Só se comparam solubilidades pelo $K_{ps}$ se a estequiometria for igual; senão, calcula $s$.