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Sistemática dos seres vivos · Classificações e nomenclatura

Classificações fenéticas e filogenéticas

Num jardim da Serra da Estrela, a Beatriz fotografa quatro borboletas e a primeira ideia é pô-las em grupos pelo aspeto: asas parecidas, tamanho parecido, cores parecidas. Mas será que as que parecem iguais são mesmo as mais aparentadas? Neste apartado vais ver duas maneiras de responder a esta pergunta e perceber porque é que nem sempre dão o mesmo resultado.

Dois critérios para agrupar

Classificar é agrupar seres vivos segundo um critério. Há dois critérios principais:

  • Classificação fenética: agrupa as espécies pela semelhança global do fenótipo (morfologia, anatomia, bioquímica…). Conta-se o número de semelhanças e de diferenças, sem perguntar de onde vêm.

  • Classificação filogenética: agrupa as espécies pelas relações de parentesco evolutivo, isto é, pela história evolutiva. Cada grupo contém um ancestral comum e todos os seus descendentes.

Repara na diferença: na fenética, o que conta é quanto se parecem; na filogenética, o que conta é de quem descendem.

Fenética Filogenética
Critério Semelhança global Parentesco evolutivo (ancestral comum)
Dados Muitos carateres, todos com o mesmo peso Carateres herdados de um ancestral comum
Representação Fenograma Árvore filogenética (cladograma)
Grupos obtidos Podem não ter um único ancestral Clados (ramos completos)
Pratica★★☆Por começar
Dois investigadores, X e Y, classificaram, independentemente, o mesmo conjunto de espécies de répteis. O investigador X contou o número total de semelhanças morfológicas…

Dois investigadores, X e Y, classificaram, independentemente, o mesmo conjunto de espécies de répteis. O investigador X contou o número total de semelhanças morfológicas observáveis entre as espécies e agrupou as mais parecidas. A investigadora Y reconstruiu a árvore evolutiva do grupo e agrupou as espécies que partilham um ancestral comum exclusivo, formando clados.

  1. a) Indica qual dos investigadores utilizou uma classificação fenética e qual utilizou uma classificação filogenética. Justifica.
  2. b) Explica o que é um clado e indica se os grupos formados pelo investigador X são, necessariamente, clados.
  3. c) Apresenta um argumento que justifique a preferência da sistemática atual pelas classificações filogenéticas.
Resolver

Classificação fenética e fenograma

Na análise fenética faz-se uma tabela com o número de diferenças entre cada par de espécies. Quantas menos diferenças, mais semelhantes. Agrupam-se primeiro as duas espécies mais semelhantes, depois juntam-se as seguintes, uma a uma. O resultado é um fenograma: um diagrama de agrupamentos sucessivos.

Fenograma de quatro espécies: P e Q agrupam-se primeiro, depois R e S, e por fim os dois pares. todas as espécies P Q R S agrupam-se mais cedo = mais semelhantes
Pratica★★☆Por começar
Uma equipa de investigadores contou o número de diferenças morfológicas entre quatro espécies de borboletas (A, B, C e D) observadas na Serra da Estrela e registou os…

Uma equipa de investigadores contou o número de diferenças morfológicas entre quatro espécies de borboletas (A, B, C e D) observadas na Serra da Estrela e registou os valores na tabela seguinte.

B C D
A 8 15 16
B 14 15
C 3
  1. a) De acordo com uma análise fenética, que duas espécies devem ser agrupadas em primeiro lugar? Justifica.
  2. b) Esboça, no teu caderno, um diagrama de agrupamentos sucessivos (fenograma) das quatro espécies, indicando a ordem pela qual se agrupam.
  3. c) Duas espécies podem ser muito semelhantes na totalidade dos carateres sem terem um ancestral comum recente. Explica como tal é possível e o que essa situação implica para a fiabilidade das classificações fenéticas.
Resolver

Classificação filogenética e árvore filogenética

Numa árvore filogenética cada ramo representa uma linhagem e cada nó representa um ancestral comum. Os carateres que surgem num ancestral são partilhados por todos os seus descendentes; por isso, lê-se a árvore pelas novidades evolutivas que cada marca assinala.

Exemplo com vertebrados: as maxilas surgiram num ancestral comum de sardinha, rã, lagarto e gato; os membros com dedos, num ancestral comum de rã, lagarto e gato; o ovo amniótico, no de lagarto e gato; o pelo, só na linhagem do gato.

Árvore filogenética de cinco vertebrados com quatro novidades evolutivas assinaladas ao longo do tronco. Lampreia Sardinha Rã-ibérica Lagarto-de-água Gato-bravo W X Y Z

As marcas W, X, Y e Z assinalam, por ordem, o aparecimento de um carater novo. Um grupo só é um clado se incluir o ancestral e todos os descendentes: «peixes» (lampreia + sardinha, sem rã, lagarto e gato) não o é.

Pratica★★☆Por começar
A tabela indica a presença (+) ou a ausência (−) de quatro carateres em cinco espécies de vertebrados, e a figura representa a respetiva árvore filogenética, com quatro…

A tabela indica a presença (+) ou a ausência (−) de quatro carateres em cinco espécies de vertebrados, e a figura representa a respetiva árvore filogenética, com quatro marcas (W, X, Y e Z) que assinalam a origem desses carateres.

Carater Lampreia Sardinha Rã-ibérica Lagarto-de-água Gato-bravo
Maxilas − + + + +
Quatro membros com dedos − − + + +
Ovo amniótico − − − + +
Pelo − − − − +
X Y Z W ancestral comum Lampreia Sardinha Rã-ibérica Lagarto-de-água Gato-bravo
  1. a) Associa cada uma das marcas W, X, Y e Z da figura ao carater da tabela cuja origem assinala.
  2. b) Indica, justificando, quais as duas espécies da figura que apresentam maior grau de parentesco.
  3. c) Um aluno afirmou: «A lampreia e a sardinha formam um clado, porque ambas têm o corpo fusiforme e vivem na água.» Comenta esta afirmação, identificando o tipo de classificação em que o aluno se baseou e explicando por que razão o grupo formado não é um clado.
Resolver

Vantagens e limitações

Vantagens Limitações
Fenética Método objetivo e simples: conta-se e agrupa-se. Não exige conhecer a história evolutiva. Dá o mesmo peso a todos os carateres. Pode agrupar espécies sem parentesco (convergência) e separar espécies aparentadas que divergiram muito.
Filogenética Reflete a história evolutiva; os grupos são clados. Usa evidências variadas (morfologia, ADN, fósseis). Exige dados fiáveis sobre a evolução do grupo; a árvore pode mudar com novos dados.

De volta ao início: as borboletas da Beatriz agrupadas pelo aspeto dão um fenograma (semelhança global); para saber quais são mesmo mais aparentadas, é preciso uma árvore filogenética baseada na história evolutiva.

Em resumo

  • Classificação fenética: agrupa pela semelhança global; representa-se num fenograma, construído juntando primeiro as espécies com menos diferenças.

  • Classificação filogenética: agrupa por parentesco evolutivo; representa-se numa árvore filogenética, em que cada grupo é um clado.

  • Um clado inclui um ancestral comum exclusivo e todos os seus descendentes.

  • Na árvore, cada marca assinala o aparecimento de um carater novo, partilhado pelos descendentes.

  • A fenética é simples, mas pode ser enganada pela convergência; a filogenética reflete a evolução, mas exige mais dados.

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