A mitose e a meiose
Numa aula laboratorial, a turma da professora Catarina observa ao microscópio a ponta de uma raiz de cebola. Há núcleos em interfase e outros onde os cromossomas, já condensados, se alinham no centro e depois se separam em dois grupos iguais. Como é que a célula garante que as duas células-filhas ficam com a mesma informação genética? E porque é que, nas células que formam gâmetas, a história tem de ser outra?
A mitose: uma divisão que conserva a informação genética
Depois da fase S do ciclo celular, cada cromossoma é constituído por dois cromatídeos-irmãos, idênticos, unidos pelo centrómero. A mitose reparte esses cromatídeos por dois núcleos. Cada núcleo-filho fica com o mesmo número de cromossomas e com a mesma informação genética da célula-mãe.
A mitose decorre em quatro fases, que se sucedem sem interrupção: prófase, metáfase, anáfase e telófase.
Citocinese: dividir o citoplasma
A mitose divide o núcleo. A citocinese divide o citoplasma e começa, em geral, durante a telófase. Faz-se de forma diferente em células animais e vegetais.
| Célula animal | Célula vegetal | |
|---|---|---|
| Mecanismo | Estrangulamento: forma-se um sulco de clivagem que aperta a célula a meio | Forma-se uma placa celular que cresce do centro para a periferia |
| Porquê | Não tem parede celular, por isso a membrana pode estrangular | A parede celular rígida impede o estrangulamento: constrói-se uma nova parede entre as células-filhas |
Para que serve a mitose?
Nos seres multicelulares, a mitose assegura o crescimento (de um zigoto até um organismo com milhões de células), a renovação de tecidos (por exemplo, as células da pele ou do revestimento do intestino) e a reparação de lesões (como a cicatrização de um corte). Nos seres unicelulares e em muitos outros, é também a base da reprodução assexuada.
As estratégias de reprodução (fecundação externa ou interna, oviparidade ou viviparidade) são tratadas noutro apartado, sobre os tipos de reprodução. Aqui interessa que, em todos os casos de crescimento e renovação, as células novas sejam iguais às que já existiam, por isso a informação genética tem de se conservar.
Na aula laboratorial, a observação ao microscópio de uma ponta de raiz de cebola permite identificar as fases da mitose: reconhece cada fase pela posição e pelo aspeto dos cromossomas, tal como descrito acima.
Ordena as seguintes fases da mitose: anáfase, telófase, prófase e metáfase, e descreve numa frase o acontecimento mais característico de cada uma delas.
Ordena as seguintes fases da mitose: anáfase, telófase, prófase e metáfase, e descreve numa frase o acontecimento mais característico de cada uma delas.
Observam-se quatro células animais em diferentes fases da mitose, numeradas de 1 a 4: Célula 1: cromossomas condensados dispersos e rutura do invólucro nuclear. Célula…
Observam-se quatro células animais em diferentes fases da mitose, numeradas de 1 a 4:
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Célula 1: cromossomas condensados dispersos e rutura do invólucro nuclear.
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Célula 2: cromossomas alinhados no plano equatorial.
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Célula 3: cromatídeos-irmãos separados a deslocar-se para polos opostos.
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Célula 4: cromossomas em polos celulares opostos e formação de um sulco de clivagem (estrangulamento).
Identifica que fase (prófase, metáfase, anáfase ou telófase) corresponde a cada célula numerada e justifica a tua resposta descrevendo uma característica observável em cada uma.
Explica a função biológica da mitose nos organismos multicelulares e apresenta dois exemplos de processos nos quais intervém de forma essencial.
Explica a função biológica da mitose nos organismos multicelulares e apresenta dois exemplos de processos nos quais intervém de forma essencial.
A meiose: duas divisões para formar células haploides
Se os gâmetas humanos se formassem por mitose, cada um teria 46 cromossomas. O zigoto teria 92, os netos 184, e assim sucessivamente. Que divisão reduz a metade o número de cromossomas para que o da espécie se mantenha constante?
É a meiose. Uma célula diploide ($2n$) replica o ADN uma só vez (fase S) e divide-se duas vezes seguidas:
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Meiose I (divisão reducional): separam-se os cromossomas homólogos. As duas células-filhas já são haploides ($n$), mas cada cromossoma ainda tem dois cromatídeos.
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Meiose II (divisão equacional): separam-se os cromatídeos-irmãos, como numa mitose. Obtêm-se quatro células haploides, com cromossomas de um só cromatídeo.
Cada divisão tem quatro fases, que se sucedem pela mesma ordem: prófase I, metáfase I, anáfase I e telófase I (meiose I) e prófase II, metáfase II, anáfase II e telófase II (meiose II). Entre as duas divisões não há nova replicação do ADN.
Fecundação e constância do número de cromossomas
A fecundação é a fusão de dois gâmetas haploides, um masculino e um feminino, que origina um zigoto diploide:
$$n + n = 2n$$Como a meiose reduz o número de cromossomas a metade na formação dos gâmetas, a fecundação repõe-no. Sem meiose, o número duplicaria em cada geração. Meiose e fecundação, em conjunto, mantêm constante o número de cromossomas da espécie nos seres de reprodução sexuada.
Quantas células-filhas são obtidas após uma mitose e quantas após uma meiose completa? Indica também a ploidia dessas células-filhas relativamente à célula-mãe em cada…
Quantas células-filhas são obtidas após uma mitose e quantas após uma meiose completa? Indica também a ploidia dessas células-filhas relativamente à célula-mãe em cada processo.
O que é a fecundação? Fundamenta por que razão a meiose é imprescindível para que o número de cromossomas se mantenha constante de geração em geração nas espécies com…
O que é a fecundação? Fundamenta por que razão a meiose é imprescindível para que o número de cromossomas se mantenha constante de geração em geração nas espécies com reprodução sexuada.
Mitose e meiose: o que se alinha e o que se separa
A forma mais segura de distinguir as metáfases é ver o que está alinhado no equador.
| Mitose | Meiose | |
|---|---|---|
| Divisões | 1 | 2 (I reducional, II equacional) |
| Células-filhas | 2 | 4 |
| Ploidia das células-filhas | igual à da célula-mãe ($2n \to 2n$) | metade da da célula-mãe ($2n \to n$) |
| Emparelhamento de homólogos | não | sim, na prófase I |
| Variabilidade | não (células geneticamente idênticas) | sim (células geneticamente diferentes) |
| Função | crescimento, renovação e reparação de tecidos | formação de gâmetas ou esporos |
Nas gónadas de um organismo diploide com $2n = 14$ isolam-se quatro células em diferentes etapas de divisão celular (denominadas A, B, C e D) e quantificam-se as suas…
Nas gónadas de um organismo diploide com $2n = 14$ isolam-se quatro células em diferentes etapas de divisão celular (denominadas A, B, C e D) e quantificam-se as suas estruturas cromossómicas:
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Célula A: Apresenta 7 bivalentes (tétradas) alinhados na placa equatorial, com um total de 28 cromatídeos.
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Célula B: Apresenta 14 cromossomas alinhados individualmente no equador celular, com 28 moléculas de ADN bicatenário no total.
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Célula C: Apresenta 7 cromossomas de 2 cromatídeos cada um, dispostos na placa equatorial.
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Célula D: Apresenta 7 cromossomas constituídos por um único cromatídeo não duplicado.
- a) Identifica fundamentadamente a que fase concreta da mitose ou da meiose corresponde cada uma das células A, B, C e D.
- b) Se durante a anáfase que se segue à etapa observada na Célula C ocorrer a não disjunção dos cromatídeos-irmãos de um cromossoma, prevê a dotação cromossómica exata das duas células-filhas derivadas diretamente dessa divisão.
A variabilidade: crossing-over, segregação aleatória e fecundação
Dois irmãos têm os mesmos pais e, no entanto, não são iguais (exceto gémeos verdadeiros). A mitose produz clones; a meiose e a fecundação fazem o contrário e originam variabilidade por três mecanismos.
Durante a prófase I da meiose ocorre o entrecruzamento (crossing-over*). Explica em que consiste este fenómeno e que consequência tem para a variabilidade genética dos…
Durante a prófase I da meiose ocorre o entrecruzamento (crossing-over). Explica em que consiste este fenómeno e que consequência tem para a variabilidade genética dos gâmetas.
Mediante técnicas de hibridação in situ fluorescente (FISH), marca-se com uma sonda verde o centrómero do cromossoma 3 paterno e com uma sonda vermelha o centrómero do…
Mediante técnicas de hibridação in situ fluorescente (FISH), marca-se com uma sonda verde o centrómero do cromossoma 3 paterno e com uma sonda vermelha o centrómero do cromossoma 3 materno em células de um indivíduo diploide. Ao microscópio observam-se três células bloqueadas em metáfase:
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Célula 1: Mostra um sinal duplo verde e um sinal duplo vermelho estreitamente associados formando pares na placa equatorial.
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Célula 2: Mostra o sinal duplo verde e o sinal duplo vermelho alinhados de forma independente ao longo da mesma placa equatorial.
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Célula 3: Mostra unicamente um sinal duplo vermelho alinhado na placa equatorial, sem presença do sinal verde em toda a célula.
- a) Deduz fundamentadamente a que metáfase (mitótica, meiótica I ou meiótica II) corresponde cada uma das três células observadas a partir da presença, ausência e orientação dos centrómeros de ambos os homólogos.
- b) Prevê que sinais fluorescentes e quantos cromatídeos do cromossoma 3 receberá cada uma das células-filhas após a anáfase da Célula 1 em comparação com a anáfase da Célula 2.
Interpretar casos concretos
Os exercícios mais difíceis pedem que identifiques a fase a partir de contagens de cromossomas e cromatídeos, ou que raciocines sobre a origem dos cromossomas. Um roteiro útil:
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Há bivalentes (homólogos emparelhados)? Então é meiose I (prófase I ou metáfase I).
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Os cromossomas estão alinhados individualmente? É mitose ou meiose II. Se o número de cromossomas for $2n$, é mitose; se for $n$, é meiose II.
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Os cromossomas têm um ou dois cromatídeos? Dois, antes de se separarem; um, depois da anáfase.
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Cada cromatídeo contém uma molécula de ADN bicatenário. O número de moléculas de ADN é igual ao número de cromatídeos.
Um casal tem um filho com síndrome de Down (trissomia 21 regular). Para determinar a origem da anomalia, analisam-se os alelos de um marcador microssatélite situado…
Um casal tem um filho com síndrome de Down (trissomia 21 regular). Para determinar a origem da anomalia, analisam-se os alelos de um marcador microssatélite situado muito próximo do centrómero do cromossoma 21, onde a taxa de sobrecruzamento é desprezável:
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Pai: homozigótico com o alelo $A_1$.
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Mãe: heterozigótica com os alelos $A_2$ e $A_3$.
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Filho com síndrome de Down: genótipo $A_1 A_2 A_3$.
- a) Deduz fundamentadamente em que progenitor se produziu a falha meiótica e demonstra de forma inequívoca se a não disjunção ocorreu durante a anáfase I ou durante a anáfase II.
- b) Se a falha de não disjunção tivesse ocorrido na outra divisão meiótica do mesmo progenitor, prevê que genótipos alternativos o filho poderia ter herdado relativamente aos alelos maternos e que percentagem dos quatro produtos dessa meiose teriam sido completamente euploides ($n = 23$).
Em resumo
Voltando à raiz de cebola: a mitose garante células-filhas idênticas porque separa cromatídeos-irmãos, e a meiose reduz a ploidia e cria variabilidade porque separa homólogos e permite o crossing-over.