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Paleogeografia e a Terra amanhã · Cenários para o século XXI

Mitigação e adaptação

Imagina que a câmara municipal de uma cidade costeira portuguesa recebe um relatório com as projeções do mar para o final do século. Pode tentar travar o problema na origem, ou preparar a cidade para o que vem aí. Qual das duas opções é a certa? Vais ver que a resposta é «as duas», e que cada uma resolve uma parte diferente do problema.

Duas estratégias, dois objetivos

As alterações climáticas atuais têm origem no aumento de gases com efeito de estufa (CO₂, CH₄, N₂O) na atmosfera. Para lidar com elas, existem dois tipos de resposta.

A diferença está no alvo. Uma central solar não impede que o mar suba hoje, mas, se for adotada em grande escala, evita que a subida seja ainda maior daqui a décadas. Um muro de proteção não reduz uma única molécula de CO₂, mas protege as casas da água.

Mitigação Adaptação
Atua sobre as emissões (causa) os impactes (consequências)
Escala global: só resulta se muitos países a fizerem local ou regional: o benefício fica na própria região
Exemplos energias renováveis, eficiência energética, transportes elétricos, florestação muros e cordões dunares, planos para ondas de calor, rega eficiente, reordenamento do território
Esquema com a causa (emissões), a atmosfera e os impactes, mostrando que a mitigação atua sobre as emissões e a adaptação sobre os impactes. Emissões de gases de estufa Aquecimento e subida do mar Impactes nas pessoas e costas MITIGAÇÃO reduzir a causa ADAPTAÇÃO reduzir os danos
Pratica★☆☆Por começar
Uma câmara municipal de uma cidade costeira portuguesa discute medidas para responder às alterações climáticas. Considera a seguinte lista: 1. instalar painéis solares…

Uma câmara municipal de uma cidade costeira portuguesa discute medidas para responder às alterações climáticas. Considera a seguinte lista:

  1. instalar painéis solares fotovoltaicos nos edifícios municipais;

  2. construir muros de proteção e reforçar o cordão dunar da praia;

  3. plantar árvores autóctones e recuperar matas no concelho;

  4. criar planos de emergência para ondas de calor, com espaços climatizados para a população;

  5. melhorar o isolamento térmico e a eficiência energética das habitações;

  6. alargar a rega gota a gota e reutilizar águas residuais tratadas na agricultura;

  7. eletrificar os transportes públicos e promover o uso do comboio em vez do automóvel;

  8. requalificar a frente ribeirinha, prevendo faixas de recuo onde não se pode construir.

  1. a) Classifica cada uma das oito medidas como de mitigação ou de adaptação às alterações climáticas.
  2. b) Explica, recorrendo a dois exemplos da lista, a diferença entre mitigação e adaptação.
  3. c) Indica, justificando, uma medida da lista que possa ser considerada, ao mesmo tempo, de mitigação e de adaptação.
Resolver

Medidas de mitigação

A mitigação trabalha sobre a origem das emissões: produzir e consumir energia, deslocar-nos, aquecer casas, produzir alimentos.

  • Energias renováveis (solar, eólica, hídrica): produzem eletricidade sem queimar combustíveis fósseis.

  • Eficiência energética: gastar menos energia para o mesmo serviço (melhor isolamento térmico das casas, lâmpadas LED).

  • Mobilidade: transportes públicos, comboio, bicicleta, veículos elétricos.

  • Sumidouros de carbono: manter e recuperar florestas, que retiram CO₂ da atmosfera pela fotossíntese.

Porque é que a mitigação tem de ser global? O CO₂ emitido em Lisboa mistura-se na atmosfera com o emitido noutras partes do mundo. Reduzir emissões só num país não trava o aquecimento global; o benefício depende do conjunto.

Medidas de adaptação

Como o mar já está a subir e as ondas de calor já são mais frequentes, é preciso preparar o território. As medidas de adaptação variam conforme o risco.

  • Defesa costeira (infraestruturas «duras»): muros de proteção, esporões, enrocamentos. Defendem o que já está construído, mas são caros, exigem manutenção e podem agravar a erosão noutros troços.

  • Soluções baseadas na natureza: reforço do cordão dunar, alimentação artificial de praias, recuperação de sapais e zonas húmidas, que amortecem a energia das ondas e absorvem cheias.

  • Reordenamento do território: deixar de construir em zonas de risco, condicionar o uso do solo e, em casos extremos, relocalizar edifícios e populações para locais mais seguros.

  • Gestão da água e do calor: rega gota a gota, reutilização de águas residuais tratadas, planos de emergência para ondas de calor, mais sombra e espaços verdes nas cidades.

  • Alerta e proteção civil: sistemas de aviso de temporais e planos de evacuação.

Pratica★★★Por começar
Uma cidade situada junto ao estuário do Tejo tem bairros construídos em terrenos muito baixos, onde outrora existiam sapais e marinhas de sal. As projeções indicam que,…

Uma cidade situada junto ao estuário do Tejo tem bairros construídos em terrenos muito baixos, onde outrora existiam sapais e marinhas de sal. As projeções indicam que, até ao final do século XXI, o nível médio do mar na costa portuguesa pode subir cerca de 1 m, situação agravada durante as marés vivas e os temporais, por galgamento e inundação das zonas ribeirinhas.

  1. a) Identifica dois riscos concretos para esta cidade associados à subida do nível do mar.
  2. b) Propõe duas medidas de adaptação de natureza diferente para a zona ribeirinha — uma baseada na defesa contra o mar e outra na reorganização do uso do território — e justifica cada uma das escolhas.
  3. c) Explica por que razão a adaptação local não dispensa a mitigação à escala global, relacionando a tua resposta com os cenários de emissões do IPCC.
Resolver

Conciliar as duas estratégias

Mitigar e adaptar não competem: complementam-se. Sem mitigação, os impactes crescem tanto que adaptar fica cada vez mais caro e difícil. Sem adaptação, os impactes que já são inevitáveis atingem populações e economias sem proteção.

Além disso, as decisões têm de conciliar o desenvolvimento da região (habitação, turismo, indústria, agricultura) com a preservação dos recursos geoambientais (costa, solo, águas subterrâneas, ecossistemas). Construir mais perto da linha de costa dá mais rendimento hoje, mas aumenta o risco e o custo da defesa amanhã.

Para decidir, usam-se alguns critérios:

  1. Risco: que perigo existe, quanta gente e património estão expostos?

  2. Prazo: o problema é imediato ou de longo prazo? Quanto tempo dura a solução?

  3. Custo e benefício: quanto custa construir e manter, e quanto se poupa em danos?

  4. Efeitos secundários: a medida cria problemas noutro local ou ambiente?

  5. Flexibilidade: a medida pode ser ajustada se o nível do mar subir mais do que o previsto?

De volta ao início: a câmara municipal não tem de escolher entre travar a causa e preparar-se para as consequências. Deve fazer as duas, escolhendo as medidas de adaptação conforme o risco concreto do seu território.

Em resumo

  • Mitigação: reduz as emissões de gases com efeito de estufa (ou aumenta a sua remoção); atua na causa e só resulta à escala global.

  • Adaptação: reduz os danos dos impactes que já não se evitam; atua nas consequências e tem benefício local.

  • Exemplos de mitigação: renováveis, eficiência energética, mobilidade sustentável, florestas. Exemplos de adaptação: muros, cordão dunar, sapais, reordenamento do território, planos de calor, rega eficiente.

  • As soluções baseadas na natureza e o reordenamento do território tendem a ser mais duradouros do que as defesas rígidas, que podem agravar a erosão noutros troços.

  • As duas estratégias complementam-se e devem conciliar o desenvolvimento da região com a preservação dos recursos geoambientais.

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