Ordenar os acontecimentos
Numa saída de campo no Norte de Portugal, a turma para diante de uma escarpa onde os estratos aparecem dobrados, cortados por uma falha e atravessados por uma faixa de rocha escura. O professor pergunta: «O que aconteceu primeiro?» Não existe nenhum relógio nas rochas, mas existe uma lógica que permite responder. Neste apartado vais aprender a usá-la.
Os princípios que dão a ordem
A datação relativa não diz há quantos milhões de anos algo aconteceu: diz o que é anterior a quê. Para isso usam-se princípios que já conheces do 11.º ano:
| Princípio | O que diz | Consequência |
|---|---|---|
| Horizontalidade original | Os estratos formam-se, por deposição, em camadas aproximadamente horizontais. | Estratos inclinados ou dobrados foram deformados depois de depositados. |
| Sobreposição | Numa sequência não deformada, cada estrato é mais recente do que o que está por baixo. | O estrato de baixo é o mais antigo. |
| Continuidade lateral | Um estrato estende-se lateralmente até se acunhar ou encontrar um obstáculo. | Estratos separados por um vale podem ser o mesmo estrato. |
| Identidade paleontológica | Estratos com os mesmos fósseis característicos têm a mesma idade. | Permite correlacionar locais distantes. |
| Interseção | Uma estrutura (falha, dique, intrusão) que corta outras rochas é posterior a elas. | Quem corta é mais recente do que o que é cortado. |
| Inclusão | Os fragmentos incluídos numa rocha são mais antigos do que a rocha que os contém. | Um seixo dentro de um conglomerado é anterior ao conglomerado. |
Neste esquema, A é anterior a B e B anterior a C (sobreposição). O dique G corta os três estratos: é posterior a todos (interseção).
Uma equipa de geólogos reconstituiu a história geológica de uma região do Norte de Portugal. Os acontecimentos seguintes estão apresentados fora de ordem: 1. ocorrência…
Uma equipa de geólogos reconstituiu a história geológica de uma região do Norte de Portugal. Os acontecimentos seguintes estão apresentados fora de ordem:
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ocorrência de uma falha que deslocou os estratos;
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erosão prolongada até à superfície atual;
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deposição de sedimentos em ambiente marinho;
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intrusão de um dique de rocha magmática;
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dobramento dos estratos sedimentares.
- a) Ordena os acontecimentos do mais antigo para o mais recente.
- b) Associa a cada relação de anterioridade o princípio de datação relativa que a justifica.
- c) Explica, com base nos princípios da geologia, por que razão uma falha que desloca estratos tem de ser posterior à deposição desses estratos.
Estruturas que contam história: dobras, falhas e discordâncias
Os princípios aplicam-se a acontecimentos de naturezas diferentes. Cada um deixa uma «assinatura»:
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Deposição: estratos paralelos, de baixo para cima.
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Dobramento: estratos curvados. Como se depositaram na horizontal, o dobramento é posterior a todos os estratos dobrados.
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Falha: plano que desloca os estratos. É posterior a todas as rochas que desloca.
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Intrusão (dique, filão): rocha magmática que corta o que já existia. É posterior às rochas encaixantes.
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Erosão e discordância: uma superfície que corta estratos inclinados, coberta por estratos mais recentes.
A discordância merece atenção. Representa uma lacuna no registo: tempo durante o qual houve erosão, ou não houve deposição, e as rochas de baixo ficaram expostas.
Lê a figura assim: (1) depositaram-se os estratos inferiores; (2) foram inclinados ou dobrados; (3) a erosão aplanou-os; (4) sobre a superfície erosiva depositaram-se novos estratos horizontais.
Como reconstituir a história passo a passo
Há um método simples. Parte sempre do que está por baixo e vai subindo, verificando o que corta o quê.
O corte geológico esquemático da figura mostra os estratos A, B e C, uma superfície erosiva (discordância), os estratos D e E, a falha F e a intrusão do dique de rocha…
O corte geológico esquemático da figura mostra os estratos A, B e C, uma superfície erosiva (discordância), os estratos D e E, a falha F e a intrusão do dique de rocha magmática G, como se mostra na figura.
- a) Ordena cronologicamente, do mais antigo para o mais recente, os acontecimentos representados: sedimentação de A–C, dobramento, erosão (discordância), sedimentação de D–E, falha F e intrusão de G.
- b) Justifica cada relação de anterioridade com o princípio de datação relativa aplicado (sobreposição, interseção ou discordância).
- c) Classifica a discordância representada entre os estratos dobrados e os estratos D–E, justificando a tua resposta.
Um exemplo regional: o Norte de Portugal
No vale do Douro, os xistos são rochas sedimentares muito antigas, depositadas em ambiente marinho e depois deformadas pela Orogenia Varisca. Na carta geológica 1:50 000 e na notícia explicativa da folha, a sequência de acontecimentos lê-se com os mesmos princípios que acabaste de usar.
Justificar e classificar
Num teste, não basta escrever a ordem: tens de justificar cada relação. Usa sempre este modelo de frase: «X é anterior a Y porque [princípio]: [o que se observa]».
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«A é anterior a B porque, pelo princípio da sobreposição, A está por baixo de B e a sequência não está invertida.»
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«G é posterior à falha F porque, pelo princípio da interseção, G corta F.»
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«O dobramento é anterior a D porque D, horizontal, assenta sobre uma superfície erosiva que corta os estratos dobrados.»
Quando te pedirem para classificar uma discordância, observa o ângulo entre os dois conjuntos e o tipo de rocha de baixo. Além da angular e da paralela, existe a discordância sobre rochas magmáticas ou metamórficas, também chamada não-conformidade:
| Aspeto observado | Classificação |
|---|---|
| Estratos de baixo inclinados ou dobrados, estratos de cima horizontais | Discordância angular |
| Estratos de baixo e de cima paralelos, com superfície erosiva entre eles | Discordância paralela |
| Rocha magmática ou metamórfica coberta por estratos sedimentares | Discordância sobre rochas magmáticas ou metamórficas (não-conformidade) |
De volta ao início: o professor, diante da escarpa, perguntava o que aconteceu primeiro. Agora sabes responder: começa pelos estratos de baixo, identifica o que está dobrado ou deslocado, e deixa para o fim o que corta tudo, como o dique.
Em resumo
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A datação relativa ordena acontecimentos: diz o que é anterior ou posterior, sem dar idades em Ma.
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Princípios: horizontalidade original, sobreposição, continuidade lateral, identidade paleontológica, interseção e inclusão.
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Dobras e falhas são posteriores às rochas que deformam; diques e intrusões são posteriores às rochas que cortam.
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Uma discordância é uma lacuna no registo: erosão (ou ausência de deposição) entre dois conjuntos de estratos.
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Método: ordena cada conjunto por sobreposição, relaciona os conjuntos, coloca as estruturas que cortam e escreve a sequência.
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Justifica sempre cada passo com o princípio aplicado.
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No Norte de Portugal, a carta geológica 1:50 000 e a respetiva notícia explicativa permitem aplicar o método a casos reais, como o dos xistos do vale do Douro.