Leitura crítica de visualizações enganosas
Vês nas redes sociais um gráfico com o título «A App B esmaga a concorrência». As colunas parecem enormes, mas será que os números dizem o mesmo que a imagem? Um gráfico não é uma prova: é uma forma de contar uma história com números, e quem o faz pode escolher a história. Neste apartado aprendes a desconfiar com método.
O eixo que não começa em zero
Num gráfico de colunas, a altura de cada coluna deve ser proporcional ao valor. Isso só acontece se o eixo vertical começar em 0. Se o eixo for «cortado» (começa, por exemplo, em 80), as diferenças pequenas parecem enormes.
Os dados são iguais nos dois gráficos. A diferença real é de $90 - 86 = 4$ pontos percentuais. À esquerda, a coluna B parece ter mais do dobro da altura da A, o que é falso: com o eixo a começar em 0, as alturas são quase iguais.
Uma empresa comparou a percentagem de utilizadores satisfeitos com duas aplicações de mensagens e publicou nas redes sociais o gráfico da figura, com o título «A App B…
Uma empresa comparou a percentagem de utilizadores satisfeitos com duas aplicações de mensagens e publicou nas redes sociais o gráfico da figura, com o título «A App B esmaga a concorrência».
- a) Lê no gráfico a percentagem de utilizadores satisfeitos com cada aplicação.
- b) Olhando apenas para a altura das colunas, quantas vezes maior parece a App B? Calcula a diferença real entre as duas percentagens, em pontos percentuais.
- c) Identifica o «truque» usado no eixo vertical e explica como deve ser corrigido o gráfico.
- d) Explica por que razão este truque é mais enganador num gráfico de barras do que num gráfico de linhas.
Percentagens que não somam 100 %
Num gráfico circular, as fatias representam partes de um todo. Por isso, as percentagens têm de somar $100\,\%$. Se não somam, há um problema.
Se o inquérito permite escolher mais do que uma opção, um gráfico circular não serve. Usa um gráfico de barras, em que cada barra mostra a percentagem de pessoas que escolheu aquela opção; as barras não têm de somar 100 %.
Um blogue publicou um gráfico circular sobre hábitos de leitura com três fatias: «leio todos os dias — 45 %», «leio algumas vezes — 40 %» e «nunca leio — 30 %». a)…
Um blogue publicou um gráfico circular sobre hábitos de leitura com três fatias: «leio todos os dias — 45 %», «leio algumas vezes — 40 %» e «nunca leio — 30 %».
- a) Calcula a soma das três percentagens e explica o que está errado num gráfico circular com estes valores.
- b) Indica duas causas possíveis para que as percentagens de um inquérito não somem 100 %.
- c) Se o inquérito permitisse escolher mais do que uma opção, que tipo de gráfico poderia representar corretamente os resultados? Justifica.
Correlação não é causalidade
Duas grandezas têm correlação quando variam em conjunto: quando uma sobe, a outra também sobe (ou desce). Isso não prova que uma seja a causa da outra.
Exemplo: numa praia, nos meses de verão, as vendas de gelados e as ocorrências de socorro a banhistas sobem ao mesmo tempo.
Os gelados não fazem ninguém afogar-se. Há uma variável escondida: o calor. Quando está calor, mais pessoas compram gelados e mais pessoas vão à praia, onde há mais ocorrências.
Um município costeiro registou, durante doze semanas de verão, as vendas de gelados nas esplanadas e o número de ocorrências de socorro a banhistas, e representou os…
Um município costeiro registou, durante doze semanas de verão, as vendas de gelados nas esplanadas e o número de ocorrências de socorro a banhistas, e representou os dados na figura.
- a) Descreve a relação que o gráfico sugere entre as vendas de gelados e as ocorrências de socorro a banhistas.
- b) É correto concluir que a venda de gelados provoca o aumento das ocorrências? Justifica.
- c) Indica uma «variável escondida» que explique a subida simultânea das duas grandezas e descreve o mecanismo.
- d) Dá um exemplo do teu dia a dia de duas grandezas correlacionadas sem que uma seja causa da outra.
Mesmos dados, histórias diferentes
Com os mesmos dados, podes contar histórias opostas escolhendo o período ou a escala. Repara na taxa de desemprego jovem (valores aproximados):
| Ano | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 |
|---|---|---|---|---|---|
| Taxa (%) | 18 | 23 | 21 | 19 | 18 |
Se mostrares só 2020 a 2023, o gráfico desce sempre: «o desemprego jovem sempre a descer». Se mostrares 2019 a 2023, vês que a subida de 2020 foi um pico e que a taxa voltou ao valor de partida: 18 %. A escolha do período mudou a história.
O mesmo se passa com a escala vertical: um eixo de 0 a 30 mostra variações suaves; um eixo de 17 a 24 faz as mesmas variações parecerem enormes.
Duas publicações nas redes sociais mostram gráficos de linhas construídos a partir da mesma tabela — a evolução da taxa de desemprego jovem em Portugal, em valores…
Duas publicações nas redes sociais mostram gráficos de linhas construídos a partir da mesma tabela — a evolução da taxa de desemprego jovem em Portugal, em valores aproximados:
| Ano | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 |
|---|---|---|---|---|---|
| Taxa (%) | 18 | 23 | 21 | 19 | 18 |
- a) A primeira publicação mostra apenas o período de 2020 a 2023 e intitula o gráfico «O desemprego jovem sempre a descer». A segunda mostra todos os anos da tabela. Explica como a escolha do período muda a história contada, embora os dados sejam os mesmos.
- b) A primeira publicação usa ainda um eixo vertical de 15 % a 25 %, enquanto a segunda usa um eixo de 0 % a 25 %. Que efeito visual tem essa diferença?
- c) Indica três perguntas que deves fazer antes de confiar num gráfico partilhado nas redes sociais.
Em resumo
De volta ao início: a «App B» não «esmaga» nada. Com o eixo a começar em zero, a diferença é só de 4 pontos percentuais.